Ao fim de mais de um dia inteiro
pilotando pelas estradas americanas, pronto para entregar os pontos,
uma luz chama atenção no meu retrovisor. É o sol, como uma bola de
fogo mais uma vez me surpreendendo com sua magnitude ao se por no
horizonte plano de um deserto, ofuscando aquela linha que de nossa
perspectiva separamos o céu da terra. É realmente uma imagem
inesquecível, que na impossibilidade de uma foto eu penso comigo
mesmo: Queria lembrar desse momento para sempre! Não apenas pela
beleza da paisagem mas principalmente pela sensação da presença de
uma harmonia tão confortante. Apesar do cansaço e da dor nos
músculos da bunda e das costas, o por do sol indica que estou a
poucos minutos do meu destino, onde uma refeição, um longo banho e
uma cama me esperam para me preparar para mais uma jornada. E eu
agradeço por mais um dia perfeito e de paisagens tão lindas que
tive a oportunidade de presenciar. Mas nem todos os dias foram assim
perfeitos com esse espetáculo fechando o dia com chave de ouro...
Primeiro Dia, (E o dia anterior):
Mesmo com muita chuva, departo de
Seattle em direção as montanhas rochosas que se estendem por toda a
América do norte. A região do Pacífico Norte, onde Seattle e
Vancouver se encontram, é pra mim uma das mais belas das Américas,
se não do planeta. Mas muita gente, mesmo visitando por dias talvez
não tem a sorte de ver toda essa beleza que a região tem a
oferecer. As montanhas que abruptamente se elevam relativamente
próximas a costa do Pacífico em boa parte do ano seguram as nuvens
e a umidade que se aproximam do Oceano, fazendo a chuva e/ou a neve
cair por semanas e ou meses. O dia da minha partida foi como um
desses dias, de muita chuva, mas não pude reclamar. Nos últimos
dois dias, meu amigo Don e eu partimos rumo às montanhas Olympics,
perto da fronteira do Canadá, para uma missão especial: deixar as
cinzas de sua madrasta que morreu no fim do ano passado aos quase 98
anos de idade. Betty foi uma pessoa tão especial pra mim que ainda
em vida escrevi sobre ela aqui no blog. As florestas que crescem
na região são impressionantes, pelo verde dos pinheiros, sua altura
e os lagos que as cercam. O sol, coisa rara por aqui, fazia o verde
brilhar tanto que não parecia real, a estrada algumas vezes me deu a
impressão de ser alguma obra da Disney. Encrustada nessa região
se encontra Forks, a cidadezinha da saga Crepúsculo, uma historia
sobre vampiros. Em um restaurante clássico comecei a conversar com a
garçonete que disse que os livros salvaram Forks e aquele
restaurante de uma falência total. Ela explicou que a autora
(que não conhecia a cidade) pesquisou no google a cidade que mais chovia nos EUA, Forks apareceu e ficou sendo a cidade dos vampiros. Apesar de pequena e pacata, pessoas
do mundo todo começaram a visitá-la depois do sucesso dos livros e
filmes (que eu ainda não li/assisti), e numa floresta ali perto, na
estrada, uma jovem inglesa e um inglês colocavam o polegar pra fora
pedindo carona. O destino deles era Port Angels, mas nos conectamos
tanto como “mochileiros” que os convidamos para subirmos juntos
Hurricane Ridge, onde deixaríamos as cinzas da Betty e de lá, para
Seattle, onde oferecemos também um lugar para passarem a noite antes
de continuarem a saga de chegar na Califórnia, pela costa do
Pacífico por meio de caronas! (Depois ainda me chamam de louco). Foi
engraçado, que falamos bastante da Betty enquanto eu dirigia, e pra
ter certeza que eles estavam entendendo de quem falávamos eu
acrescentava: “a senhora, que esta no porta malas, que vamos deixar
nas montanhas”. Betty foi a própria pessoa que escolheu onde
queria que deixássemos suas cinzas. Desconfio que sua intenção
fosse menos pelo aspecto cerimonial que pelo fato de fazer com que
quem for que a levasse tivesse a oportunidade de ter aquele presente
aos olhos. Hurriane Ridge, é realmente um lugar especial cercado por montanhas nevadas (mesmo no verão) e por essas florestas de pinheiros
incríveis. Senti uma paz muito grande de estar ali. De energia
renovada e de missão cumprida, descemos a montanha, embarcamos na
balsa e seguimos pra Seattle com nossos novos convidados que fecharam
o dia com uma deliciosa janta que nos prepararam como forma de
agradecimento.
No dia seguinte, já montado na moto,
logo no primeiro minuto indicações surgiram de que não seria um
passeio muito prazeroso. O para-brisa com a água da chuva
dificultava bem a visão, tive que esticar o pescoço boa parte do
tempo para ter certeza de que eu podia ver a estrada, e assim fui
subindo as montanhas Cascades, com a visão também limitada pela
neblina na estrada e com um incômodo crescente da água entrando nas
minhas luvas e botas. Passei por Snoqualmie Pass, onde trabalhei numa
estação de esqui pela primeira vez que vim aos EUA, e já estava
pronto pra pedir arrego a uma amiga. Mas eu tinha que continuar, até
que alguns quilômetros depois o queixo batendo de frio indicava que
era hora de parar. Confesso que fiquei chateado comigo mesmo. No
primeiro dia tinha conseguido andar apenas um pouco mais de 100 km,
dos 5500? E eu já me sentia acabado!
Segundo Dia:
Após uma boa noite de descanso em
Ellensburg, Washington, o sol batendo na janela me deu o ânimo que
eu precisava para partir e seguir para o sudeste. Gastei um bom
tempo secando com um secador de cabelo minhas luvas e as botas e
então continuei subindo a serra, dessa vez com muitas curvas e com a
paisagem mudando drasticamente, de florestas de pinheiros gigantes a
uma vegetação mais desértica. Foi uma viagem relativamente seca
apesar de algumas chuvas de tempestade isoladas. Estava curtindo
tanto poder pilotar sem chuva que eu tive uma atenção especial para
as nuvens escuras e espessas de chuva (Cumulus Nimbus) que eu via no
horizonte, torcendo que não estivessem na minha rota. Mas quando fui
aproximando de Pendleton, Oregon, aquelas nuvens começaram dar um
tom dramático á paisagem. Em momentos como esses eu senti muita
falta de não poder pegar a câmera e tirar fotos. A chuva começou a
cair sim, mas ela não me preocupou tanto como o vento, que após eu
parar em um posto de gasolina, confirmei no meu i-phone, estava a
35Kts (65km/h)! E assim como eu aprendi a “caranguejar” em um
avião com um vento lateral, logo eu percebi que é mais ou menos a
mesma coisa em uma moto, mas o cuidado é especial numa
ultrapassagem, princialmente de um caminhão, para corrigir a inclinação da moto, de acordo coma a variação do vento. Após a
passagem da tempestade continuei pela estrada que passava por típicas
cidades de filmes de “faroeste”, como Baker city no estado de
Oregon. Cheguei em Boise, Idaho, no fim da tarde, onde passei a noite
em um albergue. Apesar do cansaço, caminhei um pouco pela cidade que
me impressionou pela quantidade de gente caminhando pelas ruas e
pelos bares e restaurantes com mesas e cadeiras na calçada, num
clima bem parecido ao brasileiro.
Terceiro Dia:
Acordei bem cedo no dia seguinte, e
Boise ficou pra trás. O nascer do sol iluminava a estrada que
começava ficar cada vez mais reta em uma paisagem cada vez mais
deserta. Planejar as paradas em postos de gasolinas começaram a ter
uma prioridade maior, já que eles se tornavam cada vez mais raros.
Como um tanque me levava por aproximadamente 100 milhas e contando
que muitas vezes postos estão distantes a mais de 50 milhas entre
si, se eu deixasse passar um significaria ficar parado na estrada, no
meio do deserto. E como muitas vezes eu tinha que adentrar em
cidadelas que estavam fora da estrada, abastecer tomou uma boa parte
do meu tempo. Mas não deixavam de ser uma experiência à parte,
poder conhecer um pouco da vida rural norte-americana, tão pouco
divulgada. Bliss que significa benção em português, é uma dessas
vilas rurais que parei para abastecer já usando o tanque reserva.
Uma verdadeira “bênção” com seus campos de plantio, banhados
por um rio, que depois fui observar, se chamava “Snake River” que
eu lembro de sempre admirar nos descansos de tela que vinham com o
windows antigamente. Provavelmente devido às suas curvas acentuadas
ele leva esse nome que em Português significa, “Rio Cobra”.
Outro lugar bem interessante que me salvou com a santa (e cara!)
gasolina se chamava, Middle of Nowhere, ou Meio do Nada, em Português. E foi nesse meio do nada, no deserto, onde paguei pela
gasolina mais cara de toda a viagem: U$4,59 o galão (aprox R$
2,40/litro).
O estado de Utah chegou, e com ele suas
formações rochosas incríveis, num terreno desértico muitas vezes
a mais de 7000 pés (2133 metros) de altitude. Ao longo da estrada as
mais diferentes formas de relevo surgiam, com suas pontas abruptas e
bem definidas, camadas sobre camadas de uma rocha vermelho alaranjado. Pelo menos consegui parar em uma área de
descanso onde eu pude fotografar parte dessa formação. Essas áreas
de descanso são interessantes e muito comuns nos EUA e no Canadá,
onde o governo oferece banheiros, água, máquinas de vender lanches
e mesas e cadeiras para descanso. Geralmente não se distanciam por
mais de 40 milhas uma da outra. Me aproximei de Laramie, perto de
Cheyenne, no estado de Wyoming, com o por do sol mais uma vez
brilhando no retrovisor. Porém esse sol que trazia essa sensação
serena e de missão cumprida, parecia querer me castigar no dia
seguinte.
Quarto Dia:
Ainda no estado de Wyoming, após
partir de Laramie as seis da manhã, uma fumaça se estendia a longas
distâncias. Passei por Cheyenne e uma conferida nas imagens de radar
me fizeram tomar a decisão de seguir para o sul em direção a
Denver em vez de continuar na mesma estrada para leste, onde céu
coberto e chuvas tomavam conta da região. Era um desvio de
aproximadamente mais de uma hora, que eu não hesitei em tomar para
garantir um percurso mais seco. Mas eu não esperava que fosse tão
seco, e quente. Ainda de manhã, o bafo que vinha do asfalto e a
fumaça que se estendia pelo estado do colorado, dava um aspecto
infernal aquele percurso, e adentrando pelo estado de Kansas a fumaça
diminuiu mas o calor e também o vento chegavam a ser quase
insuportáveis. Até a moto parecia não estar gostando daquilo
pedindo troca de tanque em distância irregulares. Em uma dessas
trocas de tanque ela chegou a engasgar, perder força e parar no meio
da estrada, me dando um baita susto. O asfalto estava tão quente que
dava a impressão de que a minha bota iria derreter! Mas a moto ligou
e eu fui direto pro posto de gasolina mais próximo, que foi o menos
digamos, convencional. Como todos os postos de gasolina por aqui,
você mesmo abastece o seu tanque (com exceção do estado de Oregon)
e paga com cartão de crédito, direto na bomba. Nesse caso, no meio
de um outro nada, tive pagar dentro do estabelecimento desse posto
que era na verdade a própria casa de um casal de velhinhos, que me
tratou com muita cordialidade. Na sala estavam sentados um vovô e
uma criança que devia ser seu neto, tentando se refrescar com o
ventilador que tentava abanar aquele calor. A velhinha saiu da casa
para ver na bomba quanto eu tinha colocado de gasolina e me sentindo
um idiota de perguntar se aceitava cartão ela me respondeu, pra
minha surpresa que aceitava VISA e Mastercard, parecia até
propaganda de cartão de crédito. Nessa viagem, confesso que senti
falta de poder interagir mais com as pessoas, conhecer os locais, ter
tempo de poder explorar os lugares com mais calma como tento fazer
sempre, mas como eu tinha um certo prazo pra chegar na Florida, isso
não foi possível. Mas ainda assim, vez ou outra no posto de gasolina
sempre tinha alguém querendo puxar um papo, perguntando pra onde eu
estava indo quando viam que a placa era do estado de Washington,
principalmente como comecei ficar cada vez mais longe daquele estado.
Mas naquele dia o comentário principal era: Que calor! A cada parada
num posto de gasolina eu suava tanto que me molhava mais do que
quando estava chovendo. Para se ter uma ideia, em quase todos os
postos de gasolina o calor era tanto que eu parava e comprava uma
garrafinha de água ou gatorade, e mesmo tomando umas oito durante
todo o dia, eu só precisei usar o banheiro pra fazer xixi no fim do
dia quando cheguei em Kansas City. (Com mais um por do sol no
retrovisor da moto).
Observação: A fumaça que esteve
presente em boa parte do meu trajeto fui saber depois de chegar a
Flórida que vinha do maior incêndio da história do estado do
Colorado, chegando a deixar vítimas fatais e virar notícia no mundo
todo.
Quinto Dia:
Passar todo o dia em cima de uma
motocicleta, sentindo a vibração do motor por horas, cobrindo
distâncias continentais em um par de dias, pode parecer loucura. Mas
parece que somos seres altamente adaptáveis, e de uma certa forma já
estava me sentindo parte da motocicleta. De noite, pronto pra dormir eu sentia a mão formigando como se eu tivesse ainda segurando o guidom e mesmo nos sonhos eu ainda estava em cima da moto. As vezes eu me sentia
anestesiado, e a quantidade de horas que eu havia percorrido no dia
ou a que ainda tinha a percorrer já não era tão importante. No
primeiro e no segundo dia era difícil não contar o tempo, mas
depois a ansiedade passa, e o tempo simplesmente passa e como em um
filme fui curtindo a paisagem que passava e mudava. Esse quinto dia
me marcou por uma presença forte de “civilização”, cidades e
trânsito. Depois de tanto andar por desertos e espaços “vazios”,
quando um par de prédios e construções se aproximam a gente até
estranha. Pela manhã atravessei Kansas City e devido ao horário
enfrentei um trânsito que tentou me tirar do meu estado de paz. Como
é fácil se chatear no trânsito, parece que esquecemos que dentro
de cada máquina, (que não dá seta para mudar faixa, que cola na sua
traseira, que esquece de olhar no retrovisor, que buzina
agressivamente uns aos outros) existe um ser humano que talvez está
atrasado para o trabalho, que perdeu o melhor amigo em um acidente,
que sofreu um certo tipo de abuso. Quando me livrei do trânsito em
Kansas City, eu fiquei me perguntando o que faz a população de um
estado, uma cidade ou mesmo de um país agir tão diferente no
trânsito uma da outra. Será que como agimos dentro de um veículo é
o que somos no dia a dia? Talvez ainda buscando por respostas não me
dei conta de que tinha cruzado o estado de Missouri e logo atravessava
outra cidade grande que eu não tinha ideia de que fosse tão grande
e interessante: St Louis! A surpresa foi ver um arco gigantesco (que
eu eventualmente já tinha visto em alguma foto antes) e aprender sua
localização. A vontade de parar e conhecer aquela cidade era
grande, mas ela passou como em um filme e logo chegava em Mt Vernon
em Illinois, para almoçar uma barra de cereais de cima da moto e
seguir rumo ao sudeste cortando o estado de Kentucky e o
surpreendente Tennessee! Que estado lindo! Tennessee é um dos
estados por onde passa o monte Apalache e estrada que eu seguia
passava por essa cordilheira cheia de curvas, sobe e desce,
cachoeiras, pontes e entre essas paisagens de tirar o fôlego passei
por duas outras cidades de tamanho respeitável: Nashville e
Chattanooga. O pôr do sol fez seu espetáculo nas montanhas do
Tennessee, mas dessa vez ele não indicava que era hora de descansar,
dessa vez, meu corpo aguentou seguir viagem até às 11 da noite. O
plano era cruzar toda Atlanta, para evitar qualquer congestionamento
na manhã seguinte e garantir uma chegada mais cedo em Fort
Lauderdale.
Sexto dia:
Depois de percorrer um pedaço bom do
chão da Georgia e me certificar de que a tempestade tropical Debby
já estava fora da minha rota, eu podia ver aos arredores de
Valdosta, as placas indicando que Flórida se aproximava. Parei em um
posto de gasolina para abastecer e postei no Facebook: “Flórida à
vista!” Já era quase o meu grito de vitória. Especialmente
naquele caminho fui pensando em como eu era sortudo de em cinco dias
de estrada percorrendo mais que o dobro do que a moto já tinha
percorrido desde que saiu da fábrica, à 13 anos atrás, não ter
tido nenhum problema mecânico. Eu pensei comigo quando saí de
Seattle que eu deveria me preparar e aceitar que um problema seria
quase inevitável, considerando essa distância. Uma vez eu li o
livro: “Zen, e a Arte da Manutenção de motocicleta”. Apesar de
não se aprender a consertar moto, o paralelo que o autor faz com os
problemas mecânicos que ele e seu filho encontram ao cruzar os
Estados Unidos (de Minnesota à Califórnia, 17 dias - um trecho bem
menor que o meu) e suas discussões filosóficas, de uma certa forma
me prepararam a enfrentar melhor o fato de que quando girei a chave
para ligar a moto naquele posto, ela não deu sinal de vida, e suas
consequências. Desconfiei da bateria, claro, e também talvez do
alternador. Eu tinha duas alternativas: Tentar pegar no tranco ou
encontrar um mecânico. Claro, tentei pegar no tranco, mas como era
tudo plano(Flórida é tão plana que se brinca – talvez seja
verdade - que o morro do descarte de lixo é o ponto mais alto do
estado), não tive sucesso. Mas eu tentei de novo e de novo, fazendo
todo o esforço possível com os pés, mas nada. Consegui alguns
números e tentei ligar para alguns mecânicos mas como estava na
estrada e longe de alguma cidade grande voltei a tentar a empurrar a
moto pra frente pra trás, torcendo que ela desse sinal de vida. E
eis que surge o primeiro anjo da minha viagem. Alguém surgiu pra me
ajudar a empurrar a moto e na segunda tentativa para meu grande
alívio: brroooomm. Segui estrada e mesmo faltando várias horas pra
chegar em casa eu estava certo de que não desligaria a moto até
chegar lá. Mas... Eu tinha que abastecer, será que eu podia
abastecer com a moto ligada? Mas como eu abasteceria a moto se eu
precisava da chave que estava na ignição pra abrir o tanque? No
próximo posto, quando desliguei a moto, me senti um assassino, e
como esperado ela não ligou de novo, e outra hora se foi tentando
pegar no tranco e sendo ajudado por outros “anjos”. Meu plano era
conseguir chegar em Orlando, onde eu sabia que poderia encontrar um
mecânico e passar a noite. La cheguei, abasteci, outra hora foi
gasta para ligá-la e lá fui eu tentar encontrar um mecânico.
Confesso que não tentei muito. Desisti na primeira tentativa, quando
vi que que o mecânico funcionava até as 18. E já era depois disso.
Como faltava 220 milhas pra chegar em casa, se eu parasse em um posto a aproximadamente 100
milhas eu teria que fazer a moto funcionar no tranco apenas uma vez.
Como a moto não tem mostrador de gasolina, eu estava contando com
o odômetro, mas como ela ficou ligada parada em Orlando por uns 30 minutos,
aquilo já não era tão preciso, e a chance de acabar a gasolina
antes de chegar no posto era grande. Se alguém duvida de Murphy,
dessa vez sua Lei funcionou direitinho. A moto ficou sem gasolina na
saída para o posto, que ficava a 30 minutos de caminhada do outro
lado da estrada. Nada mal, depois de tanto tempo na moto porque não
uma caminhadinha com uma mochila gigante nas costas, capacete e
apetrechos (num calor dos infernos)? Resumindo, depois de um tremendo esforço físico
caminhando para o posto voltando com gasolina, empurrando a moto na
rampa do viaduto, pegando no tranco (dessa vez foi fácil- na descida
da rampa!) pegando no tranco outra vez depois de completar o tanque
no posto (mais outra hora), e o último trecho com visibilidade
restrita pela chuva, cheguei finalmente em casa tarde da noite.
Cumprindo minha palavra de que eu chegaria na quarta-feira! (só
pegou um pedacinho da quinta-feira...)
Da viseira do meu capacete, vi as rodas
da moto passando por milhares de quilômetros, cinco “pôres” de
sol, Montanhas Rochosas, Apalaches, 12 estados americanos, um carro
pegando fogo, cinco carros de polícia rendendo e apontando uma arma
para um sujeito, neve, deserto, chuva, 3 casas sendo transportadas
por caminhões nas estradas, dezenas de veados, cachorros, e outros
animais mortos na beira da estrada, centenas de outros vivos e muitas
outras coisas que eu não lembro agora. Eu sei que esse post saiu
gigantesco, mas se você chegou até aqui, é porque você é minha
mãe, ou no fundo tem uma vontadezinha de fazer algo parecido, e eu
vou dar toda a força. Eu sei que existem riscos. Aliás, para tudo
na vida existem riscos. Até de ficar em casa. Eu particularmente acho
muito arriscado essa atividade de sentar no sofá e assistir
televisão. Não nego que curto e a pratico uma vez ou outra, mas
muita gente me diz que só temos uma vida e a ideia de ver o “mundo” através de uma caixa, sem meus próprios olhos me assusta. E deve
assustar o navegador Amyr Klink também. Olha o que ele escreveu:
“Um
homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias,
imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés,
para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias
árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E
o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o
próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece
para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o
imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz
professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser
alunos, e simplesmente ir ver”