terça-feira, 27 de novembro de 2012

Saint Lucia (Uma outra nação independente!)


Essa foto pode parecer que tirei do avião numa aproximação muito mal feita no aeroporto de Sta Lucia, mas na verdade foi tirada da varanda do nosso hotelzinho. (De uma ou duas estrelas, o mais econômico que encontramos ainda assim com essa vista). Sim , existem construções e ladeiras bem na cabeceira da pista 27 e por esse motivo, pousar desse lado pode ser bem desafiante!

Dessa vez deixamos a ideia de alugar um carro de lado e decidimos explorar esse país de barco. Como não era alta temporada apenas duas senhoras nos acompanharam no passeio em um barco acostumado a levar até 18 pessoas. Enquanto navegávamos ao redor da ilha, a cada curva tínhamos uma surpresa diferente. Conhecemos uma parte muito rica da ilha, onde famosos como a Oprah possuem suas mansões de veraneio. Em uma parada, descemos para um mergulho de superfície, onde vimos diversos peixes coloridos nadando entre corais coloridos em água incrivelmente clara e com temperatura bem agradável. 
Em uma das paradas, um guia nos levou em sua van no que ele dizia ser o único lugar do mundo onde você podia dirigir até a cratera de um vulcão. Não pudemos colocar a cara pra ver o buraco, mas na distância podíamos ver e sentir a fumaça quente e fedorenta de enxofre saindo do "centro"da terra. Ainda nesse lugar tomamos um banho de lama quente vulcânica, que diziam curar até a doença que você ainda não tinha! Ainda sujos de lama, fomos caminhar na floresta até encontrarmos essa cachoeira e piscinas naturais para nos limparmos em águas incrivelmente mornas! Foi o primeiro lugar onde eu vi uma cachoeira de água morna e achei o máximo! 





 Ao aproximarmos dessa fenda, escutamos um barulho muito agudo e após chegarmos bem perto estava claro: Morcegos. Centenas deles!









Saint Lucia é famosa pela formação de seu relevo com destaque para seus "pitóns": Duas montanhas vulcânicas em formas de triângulo que se destacam sendo vistas facilmente do mar e de algumas cidades como a sofrida Soufrière que já se reconstruiu várias vezes após terremotos, incêndios e furacões. 

Quer visão mais privilegiada do que poder ver Saint Lucia e seus "pitóns" lá de cima? O que mais podíamos pedir?



Um arco-íris!



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Martinique


St. Pierre 2012
“Eu senti o vento soprar com muita força, o chão começou a tremer, e o céu de repente ficou escuro. Eu virei para entrar em casa, com grande difuculdade, subi os tres ou quatro degraus que me separavam do meu quarto, e senti meus braços e pernas queimando, e também o meu corpo. Eu me deitei numa mesa. Nesse momento quatro outros buscaram refúgio no meu quarto, chorando e agonizando de dor, mesmo que suas roupas não tivessem nenhum sinal de terem sido ecostados por chamas. No fim de uns 10 minutos, a jovem menina Delavaud caia morta no chão. Os outros deixaram o quarto. Me levantei e fui a um outro quarto, onde achei o pai Delavaud , ainda com roupas, deitado na cama, morto. Ele estava roxo e inchado, mas suas roupas estavam intactas. Louco e perplexo me enfiei na cama e inerte esperei pela morte. Meus sentidos voltaram aproximadamente uma hora depois quando eu percebi o telhado pegando fogo. Com o resto de força que me restava, e com as pernas sangrando e cobertas de quimaduras, eu corri para Fonds-Sait-Denis, seis quilômetros de St. Pierre.”

Vários vulcões e montanhas pareciam surgir do nada, no mar azul-turquesa caribenho, e a maioria com seus peculiares traços de habitação. Enquanto pilotava, com frequência eu ficava pensando como deve ser crescer e viver em cidades na base de vulcões. Eu sei que a possibilidade de um vulcão entrar em erupção e dos moradores não correrem a tempo deve ser bem baixa, mas ao conhecer a ilha francesa de Martinique eu fui lembrado do poder e da “fúria” da natureza e de como somos vulneráveis. O pior desatre vulcânico do século 20 aconteceu nessa ilha, na cidade de Mont Pierre. Saindo da capital Fort-de-France, em menos de uma hora de viagem de carro pelas sinuosas estradas de Martinique, chegamos na pitoresca cidade de Mont Pierre, banhada pelo mar caribenho e ao pé do vulcão Mount Pelée. As contruções antigas, casas feitas de madeira e/ou de pedras irregulares e algumas ruínas não pareciam mostrar o que aconteceu a pouco mais de 100 anos naquele lugar. Com o charme da época era considerada como a “Paris” do Caribe quando Mount Pelée entrou em erupção, destruiu completamente a cidade e matou seus quase 30 mil habitantes, com exceção de duas pessoas. Léon-Compere-Léandre, um jovem sapateiro foi um dos dois únicos sobreviventes. Sim apenas duas pessoas sobreviveram, e o primeiro parágrafo desse post é uma tradução apressada de seu relato.

Fora essa história trágica, Martinique tem muita beleza nas suas praias, florestas, plantações. No alto das colinas, com a visão privilegiada do Caribe, estradas passam por plantações de banana, cana de açúcar, matas verdes com diversidade grande de flora e fauna. Era curioso dirigir nas estradas com padrão europeu, muito bem sinalizadas e asfaltadas com placas em francês abrindo caminho em cenário tão tropical. 

Algumas fotos:







quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Vídeo Ilhas Virgens



E para evitar ficar repetindo adjetivos como: "de tirar o fôlego, incrível, supimpa", aí vai um vídeo do que fizemos nas Ilhas Vigens, a decolagem do aeroporto de Beef Island e o "pouso" em St. Kitts and Nevis:


Ilhas Virgens

Pousar em Tortola foi uma atração à parte. Dava vontade de fazer uma aproximação mal feita para poder arremeter e tentar de novo só para continuar admirando o visual daquelas ilhas. Mas não foi preciso. Depois que tomamos uma balsa para ilha de Virgin Gorda, o visual nunca decepcionou. Nos hospedamos em uma espécie de apartamento de veraneio com uma vista fantástica. Lauralee, a dona do lugar, já estava a nossa espera no porto onde a balsa atracou, e com muita simpatia, nos acompanhou para alugarmos um pequeno jipe 4x4 (dificilmente um de tração normal subiria as ladeiras da ilha) e nos levou para comprar o básico de alimentação para nossa estadia. Como em muitas das ilhas que íamos conhecer dali em diante, o relevo era bem montanhoso. Andar nas estradas consideravelmente estreitas e íngrimes no lado esquerdo da estrada (por ser território britânico) e com o volante do lado "normal", dificultava ver se vinha tráfego na direção oposta. A paisagem sempre tentava tirar minha concentração, mas eu tinha que estar atento também ao curioso tráfego de cabras:


Acordamos no dia seguinte com esse visual:


Pegamos o carro, e após um sobe e desce de ladeira, fomos caminhar no Parque Nacional "Gorda Peak". São 800 metros de subida em uma trilha na mata que te traz à uma plataforma com um visual de tirar o fôlego. Outro lugar imperdível foi o "The Baths". É um conjunto de rochas grandes formando um conjunto de túneis e labirintos à beira-mar. Você agacha, sobe, nada, escala, pula as pedras com o mar caribenho sempre intercalando o visual.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Voando para as Ilhas Virgens

Foi um voo interessante. Despedimos da República Dominica, com Punta Cana em vista na costa leste do País e depois do mar aberto logo chegou Puerto Rico, com um espaço aéreo bem intenso, mas com o bem organizado sistema americano, fui informado pelo Centro de Controle de San Juan de várias aeronaves na minha rota. Um deles, um jumbo de carga da Fedex que passou abaixo do meu nível de voo, acabei conseguindo tirar uma foto:



 Apesar de não voar tão baixo quanto eu gostaria pudemos ver o Castillo San Felipe del Morro, famosa fortaleza histórica da cidade de San Juan onde à alguns meses atrás tive a oportunidade de caminhar e contemplar de perto.


Após Puerto Rico, as maravilhosas ilhas virgens americanas e britânicas fecharam nosso voo com chave de ouro. Aqueles montes verdes encrustados naquela água azul turquesa vistos lá de cima não pareciam reais. Tentando me concentrar para a aproximação no aeroporto da ilha de Virgin Gorda, eu não parava de perguntar o Don e o Rafael: "Vocês estão vendo o que estou vendo? Estão tirando fotos?"



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A cidade mais antiga das Américas


Após abastecimento em Puerto Plata, na costa norte, cruzei a montanhosa República Dominicana e cheguei na fervilhante capital, ao sul, Santo Domingo. Tendo estado na turística Punta Cana, estava ansioso para conhecer esse país da perspectiva de seus habitantes. Uma caminhada no centro histórico mostra a responsabilidade daquele povo de preservar a história da cidade mais antiga das Américas. Com a chegada de Cristóvão Colombo em 1492, os vários museus da cidade tem muita história para contar. Ali você vai encontrar a primeira igreja, o primeiro hospital, escola, etc das américas. Na tentativa de sobreviver a uma economia não muito estável e bem dependente do turismo, a todo instante éramos oferecidos serviços de todo o tipo; comida, taxi, passeios turísticos. Mas no pretexto de economizar dinheiro e viver o que o povo de lá vive, pegamos um ônibus lotação e fomos pra Boca Chica, o destino mais popular dos finais de semana dos dominicanos. Chegando lá, a informação visual era tanta que quase não percebemos que estávamos diante de uma linda praia de água azul-esverdeada caribenha. Estava repleta de gente; crianças brincando, famílias inteiras se divertindo, vendedores vendendo seus peixes (e quadros pintado a óleo!), sons de todos os tipos saindo dos alto-falantes dos carros e dos bares. Fiquei feliz de ver aquele povo alegre se divertindo nesse presente da natureza que muitas vezes é apenas explorado pelos turistas gringos.

sábado, 17 de novembro de 2012

Encarando uma tempestade no Oceano

Próximo destino era pra ter sido Turks and Caicos, mas como fiquei sabendo que os aeroportos lá estão cobrando taxas abusivas, decidi seguir direto para Santo Domingo na República Dominicana com uma parada para abastecimento e alfândega em Puerto Plata, na costa norte do País. Durante o planejamento de voo com ajuda do meu grande amigo Felipe Thomé que me acompanhou em tempo real durante todo meu trajeto, vimos uma tempestade na rota, com o centro dela, mais próximo de Turks and Caicos. Decidi decolar já que a previsão de tempo para a área era de instabilidade para toda a semana e tendo em mente que meu plano alternativo só podia ser Cuba, à Oeste.
As estatísticas mostram que na maioria esmagadora dos acidentes aéreos, a causa, é erro humano. E durante toda essa viagem, esse voo foi o mais próximo de eu virar mais um número. O julgamento para um voo seguro sempre começa no solo. Quando eu estudava os acidentes aéreos, eu sempre achava que eu nunca cometeria um desses erros. Cumulus Nimbus (umas nuvens nada amigáveis) pra mim era sinônimo de virar 180 graus ou de permanecer em solo. Mas sobre o oceano a gente nem sempre tem essa opção de voltar pra trás, já que o combustível que resta no tanque só te leva ao seu destino. Meu erro foi de decidir decolar, ponto. Em Exumas, o dia estava lindo, era difícil de acreditar que logo ali na frente um pesadelo me esperava. E começou assim: a visibilidade foi bem ao poucos diminuindo e fui corrigindo a proa um pouco pra Oeste onde parecia mais claro. De repente lá estava o cessninha dentro de uma nuvem. A chuva começou aos poucos bater no pára-brisa e o Don, meu único passageiro nesse voo acorda e olha pra mim: Eu com um sorriso na cara digo: "It's all right", mas a chuva foi pesando, a nuvem ficando cada vez mais escura e mostrando sua força. Liguei o aquecedor do carburator e do tubo de pitot pra evitar gelo e com isso perdi potência. Com muita atenção nos instrumentos eu sabia que minha maior preocupação naquele momento era deixar o avião de cabeça pra cima e nivelado. Tentei fazer contato com algum centro de controle, mas não vinha nenhuma resposta.
Calma. Era isso que eu precisava e me surpreendi. Eu tinha medo, mas estava calmo. Na minha cabeça eu repassava todos os procedimentos de emergência e minhas prioridades: 1o: Voar o avião. 2o: Navegar e 3o: Comunicar. Parece simples? Não é. A força dentro da nuvem era tanta que perdi mais de 1500 pés em um curto espaço de tempo, e não era difícil a turbulência me deslocar a mais de 30 graus da minha rota. Com o cinto de segurança bem preso a minha menor preocupação era com a turbulência. Claro, estava assustando o Don e o barulho da chuva parecia mais alto do que o barulho do motor girando ali, na nossa frente. Mas tenho que tirar o chapéu pra ele. Durante esse sufoco ele cruzou os braços e fechou os olhos, as vezes ele abria pra ver minha reação e vendo meu sorriso parecia assegurar que tudo estava bem. Quando a tempestade ficou pra trás e vimos com um grande alívio o bom e lindo céu azul na nossa frente ele me deu um tapinha nos ombros como que dizendo: Bom trabalho! De certa forma eu estava orgulhoso de mim mesmo; de poder saber que eu podia manter a calma e controlar o avião numa situação que já matou tanta gente. Ainda assim nada justifica minha decisão de decolar sabendo daquela tempestade. Naquele momento eu fui um péssimo piloto.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Exumas - Bahamas


Depois de ter entrada negada nas Bahamas e ter que voltar para os EUA com com um suposto "imigrante ilegal", não tive opção se não voar para outra ilha das 700 que Bahamas possui. O combustível do cessninha não me permitiria voar além disso. Com Exumas na  proa, fizemos um voo tranquilo. A simpatia com que fui recebido no aeroporto, me fez lembrar a nunca julgar uma nação pela experiência com apenas uma pessoa, como no caso do oficial da Ilha de Bimini.




Em uma das 700 ilhas, jovens jogando basquete, com um sonho em comum: Querem ter o barco próprio!


Na fila, no meio de gigantes.




Fila de decolagem do aeroporto internacional de Fort Lauderdale. O que será que os pilotos das linhas aéreas pensavam quando viam o cessninha competindo espaço naquele aeroporto?

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

De quase atrás das grades para o paraíso.


Quem tem acompanhado o blog sabe que eu não escrevi muito no último ano, mas vou escrever uma desculpa esfarrapada: O blog se chama "Do Canadá ao Brasil", e não fazia muito sentido escrever o que não fazia parte dessa aventura, mas ainda assim não resisti à tentação e tive que descrever umas experiências, como atravessar os EUA de ponta a ponta de moto e alguns eventos na Flórida. Mas muitas outras coisas aconteceram nesse meio tempo, que talvez devido a correria não me permitiu compartilhar. Como minha visita aos subterrâneos de guerra de Berlin, na Alemanha, com um grupo de uma universidade holandesa, onde minha amiga estuda. Também a melhor das experiências que foi ser o acompanhante de três crianças da Gambia (3, 7 e 12 anos de idade) em um voo de NY para Seattle para o reencontro com a mãe deles depois de 3 anos separados. É uma história emocionante mas espero escrever em uma outra oportunidade.
A notícia boa é que a Flórida ficou finalmente para traz e estou escrevendo isso em uma ilha do Caribe, escutando as ondas do Atlântico quebrarem a uns 20 metros penhasco abaixo. A vista é deslumbrante. As vezes penso que estou no paraíso, mas logo lembro que o paraíso também tem seus defeitos: A cada cinco palavras escritas tenho que parar pra abanar ou coçar pela picada dos mosquitos. Chegar nesse paraíso no meio de uma mata fechada, também não é muito fácil. A estrada, estreita, boa parte de terra, é desafiante, passa por montanhas, curvas que quase te permitem ver a placa traseira do carro que você está dirigindo. Para piorar, o carro que dirijo tem o volante do lado direito e o tráfego por aqui é sempre pelo lado esquerdo. Uma das lembranças que o domínio inglês deixou por aqui. Estou escrevendo isso na minha décima parada depois da Flórida, em Grenada, o penúltimo país antes de eu chegar na América do Sul. Esse tempo pra escrever surgiu porque hoje era pra eu seguir pra Trinidad & Tobago, mas a previsão de tempo por lá não era das melhores e decidi ficar por aqui por um dia mais. 
Comigo vão grandes amigos: Don, o cara que pagou pelo avião, e Rafael, que através do Don e de uma grande coincidência fui conhecer na Flórida, e acabamos dividindo o mesmo teto durante boa parte da minha estadia nos EUA. Rafael, depois dessa viagem vai ser quase um piloto. Vai faltar só o brevet! Seu interesse pela aviação é tanta que mesmo sem saber que poderia fazer a viagem comigo me ajudou imensamente com planos de voos e todos os preparativos de viagem antes de seguirmos viagem em mar aberto.
Depois de muita correria com o fim da estadia da minha mãe e avó que me deram o presente de me visitarem na Flórida, a chegada do Don, de Seattle e todo o trabalho de devolver o apartamento que Rafael e eu estávamos alugando, o dia 15 de Novembro, marcado pra nossa decolagem da Flórida, chegou. E o voo pra Bahamas, nossa primeira parada aconteceu. Bem, como só conseguimos partir pela tarde, acabei decidindo ir pra Bimini, uma ilha bem mais próxima que Exumas, onde planejamos inicialmente.  O voo foi tranquilo e após pousar naquele aeroporto um tanto rudimentar, o sorriso estampado nas nossas caras diziam tudo: Está acontecendo, estamos seguindo rumo ao Brasil! Eu amo viajar e sei que pedras no caminhos sempre surgem e estar preparado para elas é muito importante para manter a fleuma e o humor pelo mundo. Mas eu realmente não esperava que na primeira parada o desafio seria assim: Entrada negada! O oficial daquele minúsculo aeroporto, que como ele mesmo disse, no meio do nada, parecia não entender que mesmo que o visto do Rafael nos EUA estivesse vencido, seu status era legal por lá já que ele tinha conseguido uma extensão de estadia para seus estudos. Por causa disso ele impediu sua entrada nas Bahamas e consequentemente a minha, que era o piloto da aeronave que o trouxe a bordo. Rafael já não podia voltar aos EUA, por cauda de seu visto e me vi entre a cruz e a espada. Tentamos explicar para o oficial, mas ele não parecia muy amigo e nossas únicas opções eram voltar para o avião para decolagem imediata ou ser preso pelo guardinha que já estava nos aguardando. Bahamas não permite voo após o por do sol e o sol ja estava se escondendo no mar caribenho. Corremos para o avião,  e pelo celular, na correria, fiz o plano de voo e todos os requerimentos de voo internacional em 3 minutos (geralmente preciso de quase uma hora) e decolamos. Com o combustível restante não tinha para onde ir, a não ser voltar para os EUA, com um passageiro a bordo sem o visto e ver o que aconteceria por lá. A apreensão era grande mas não pudemos deixar de contemplar aquele magnífico por de sol, la de cima! Pousei no aeroporto internacional de Fort Lauderdale, na segunda posição, atrás de Boeing 737 e depois de muitas entrevistas, explicações e quase duas horas depois, a policia de imigração dos EUA nos surpreendeu e deu uma permissão de uma semana para o Rafael, com uma condição: Eu deveria assinar uma carta de deportação, em que eu seria o piloto responsável pela sua saída do país! Com o apartamento devolvido, tivemos que, ironicamente, buscar um hotel no nosso primeiro dia de viagem, na cidade onde moramos por quase um ano. Achando um luxo por não ter que dormir atrás das grades...

Voo da Flórida à Bimini, Bahamas


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Peixe Voa? (St. Kitts and Nevis: Um país!)



Hoje no trajeto de barco de uma ilha com um vulcão no meio pra outra ilha com outro vulcão no meio, estava eu um tanto distraído olhando para o mar verde-azulado do Caribe quando um peixe que eu observava saiu da água, voou por alguns segundos a uma velocidade muito superior à do barco e voltou pra água. Mas aquilo era realmente um peixe? Ou era um pássaro? Alguns minutos depois eu vi outro e mais outro até quando eu vi um cardume inteiro voando e aprendi: Peixe voa!
Saint Kitts and Nevis é o nome dessas ilhas no mar do Caribe, que como aprendi recentemente formam uma nação independente. O domínio britânico nessas duas ilhas perdurou até meados do fim do século passado, deixando um país em que se fala inglês (com um sotaque carregado) e ruas com tráfego no sentido inverso ao nosso. Não é um país rico, mas também não há muita pobreza como vi à alguns dias na República Dominicana. O povo é muito cordial e simpático, maioria de pele negra, descendentes de escravos. Nevis era famosa pelo seu mercado de escravos que possuía os mais desejados do Caribe e foi lá que nasceu Alexander Hamilton, o cara que ajudou a criar a democracia nos EUA e que hoje aparece nas notas de 10 dólares.

Aqui nasceu o cara das notas de U$10, Alexander Hamilton


Fora os cruzeiros que devem trazer mais da metade da população da capital, Basseterre, em um só dia, as ruas de St. Kitts e Nevis tem um ritmo caribenho especial que é facilmente ilustrado com uma observação: É o primeiro país que eu conheço que não têm e nem precisa de sinal de trânsito! 


Chegando no aeroporto de Nevis o vento estava muito inconstante e a torre acabou me mandando para o lado desfavorável da pista . Fui aproximando e eu acabei chegando rápido e alto demais devido ao vento e tive que arremeter. Subi de volta para mil pés, me preparei novamente para o pouso e novamente não consegui pousar. Confirmei com a torre que o vento tinha invertido e pousei suavemente na outra direção.


sábado, 29 de setembro de 2012

Fui uma "gracinha" por um dia.


"Você quer conhecer a Hebe?"
-É claro, respondi no telefone ao meu amigo Kamal, que é um grande amigo da Hebe Camargo. De visita à Miami, ela com Kamal, familiares e amigos foram ao show do Roberto Carlos. Ao fim do show, seguimos para um restaurante para jantarmos. Ainda de dentro do carro, várias pessoas acenavam para aquela pessoa tão querida. Nunca cheguei a ser fã, mas sempre lembro da minha avó Hosana sempre comentando e  elogiando. E assim que fui apresentado deixei claro:
-Tenho uma vovó muito fofa que é sua fã, eu cheguei a ligar pra ela antes desse encontro pra contar a novidade e ela ficou toda contente. Eu logo fui fisgado por sua simpatia, me perguntando como chamava minha avó. Hosana, disse. "Vamos tirar uma foto para você mandar pra Hosana então". Ela sugeriu. De perto ela parecia muito jovem para a idade, não havia nenhum truque de fotografia ou de filmagem. Claro, como artista, ela é a rainha da arte de encantar. E me encantou. Mas não foi a beleza do rosto mais jovem retocado de maquiagem, da idade disfarçada por plástica ou das jóias que usava que fui só perceber depois pelas fotos: Ela me encantou com sua simpatia, pelo seu interesse no outro. E naquela ocasião, o outro era eu. Por uns 15 minutos antes de encontramos uma mesa para sentarmos Hebe se agarrou nos meus braços como se fossemos amigos de longa data e proseamos.  Ela logo descobriu meu encanto por viagens e por aviões e a conversa ficou ali, para minha alegria. Perguntei se ela ja tinha andado de avião pequeno, ela disse que sim, uma vez, mas morreu de medo, e também tinha andado de helicóptero por Miami com Kamal, que amou! Mas o que ela gostava mesmo era de andar de jatinho. Isso talvez tenha sido o mais inesperado do nosso encontro. Famosa pelas jóias, pela riqueza e pelo glamour a lembrança que terei dela é de uma pessoa que mesmo não falando inglês fez questão de agradecer em inglês todos os funcionários do restaurante, ajudou o garçom a retirar a mesa, me fez experimentar lula frita (que estava uma delícia), aceitou (na brincadeira, é claro) a sugestão do Kamal de voar no cessninha comigo até o Brasil e a lição de que o segredo de uma pessoa atraente está mais no seu interesse pelas pessoas ao seu redor do que na sua própria.
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domingo, 8 de julho de 2012

Cruzando os EUA numa moto...

Ao fim de mais de um dia inteiro pilotando pelas estradas americanas, pronto para entregar os pontos, uma luz chama atenção no meu retrovisor. É o sol, como uma bola de fogo mais uma vez me surpreendendo com sua magnitude ao se por no horizonte plano de um deserto, ofuscando aquela linha que de nossa perspectiva separamos o céu da terra. É realmente uma imagem inesquecível, que na impossibilidade de uma foto eu penso comigo mesmo: Queria lembrar desse momento para sempre! Não apenas pela beleza da paisagem mas principalmente pela sensação da presença de uma harmonia tão confortante. Apesar do cansaço e da dor nos músculos da bunda e das costas, o por do sol indica que estou a poucos minutos do meu destino, onde uma refeição, um longo banho e uma cama me esperam para me preparar para mais uma jornada. E eu agradeço por mais um dia perfeito e de paisagens tão lindas que tive a oportunidade de presenciar. Mas nem todos os dias foram assim perfeitos com esse espetáculo fechando o dia com chave de ouro...

Primeiro Dia, (E o dia anterior):

Mesmo com muita chuva, departo de Seattle em direção as montanhas rochosas que se estendem por toda a América do norte. A região do Pacífico Norte, onde Seattle e Vancouver se encontram, é pra mim uma das mais belas das Américas, se não do planeta. Mas muita gente, mesmo visitando por dias talvez não tem a sorte de ver toda essa beleza que a região tem a oferecer. As montanhas que abruptamente se elevam relativamente próximas a costa do Pacífico em boa parte do ano seguram as nuvens e a umidade que se aproximam do Oceano, fazendo a chuva e/ou a neve cair por semanas e ou meses. O dia da minha partida foi como um desses dias, de muita chuva, mas não pude reclamar. Nos últimos dois dias, meu amigo Don e eu partimos rumo às montanhas Olympics, perto da fronteira do Canadá, para uma missão especial: deixar as cinzas de sua madrasta que morreu no fim do ano passado aos quase 98 anos de idade. Betty foi uma pessoa tão especial pra mim que ainda em vida escrevi sobre ela aqui no blog. As florestas que crescem na região são impressionantes, pelo verde dos pinheiros, sua altura e os lagos que as cercam. O sol, coisa rara por aqui, fazia o verde brilhar tanto que não parecia real, a estrada algumas vezes me deu a impressão de ser alguma obra da Disney. Encrustada nessa região se encontra Forks, a cidadezinha da saga Crepúsculo, uma historia sobre vampiros. Em um restaurante clássico comecei a conversar com a garçonete que disse que os livros salvaram Forks e aquele restaurante de uma falência total. Ela explicou que a autora (que não conhecia a cidade) pesquisou no google a cidade que mais chovia nos EUA, Forks apareceu e ficou sendo a cidade dos vampiros. Apesar de pequena e pacata, pessoas do mundo todo começaram a visitá-la depois do sucesso dos livros e filmes (que eu ainda não li/assisti), e numa floresta ali perto, na estrada, uma jovem inglesa e um inglês colocavam o polegar pra fora pedindo carona. O destino deles era Port Angels, mas nos conectamos tanto como “mochileiros” que os convidamos para subirmos juntos Hurricane Ridge, onde deixaríamos as cinzas da Betty e de lá, para Seattle, onde oferecemos também um lugar para passarem a noite antes de continuarem a saga de chegar na Califórnia, pela costa do Pacífico por meio de caronas! (Depois ainda me chamam de louco). Foi engraçado, que falamos bastante da Betty enquanto eu dirigia, e pra ter certeza que eles estavam entendendo de quem falávamos eu acrescentava: “a senhora, que esta no porta malas, que vamos deixar nas montanhas”. Betty foi a própria pessoa que escolheu onde queria que deixássemos suas cinzas. Desconfio que sua intenção fosse menos pelo aspecto cerimonial que pelo fato de fazer com que quem for que a levasse tivesse a oportunidade de ter aquele presente aos olhos. Hurriane Ridge, é realmente um lugar especial cercado por montanhas nevadas (mesmo no verão) e por essas florestas de pinheiros incríveis. Senti uma paz muito grande de estar ali. De energia renovada e de missão cumprida, descemos a montanha, embarcamos na balsa e seguimos pra Seattle com nossos novos convidados que fecharam o dia com uma deliciosa janta que nos prepararam como forma de agradecimento.
No dia seguinte, já montado na moto, logo no primeiro minuto indicações surgiram de que não seria um passeio muito prazeroso. O para-brisa com a água da chuva dificultava bem a visão, tive que esticar o pescoço boa parte do tempo para ter certeza de que eu podia ver a estrada, e assim fui subindo as montanhas Cascades, com a visão também limitada pela neblina na estrada e com um incômodo crescente da água entrando nas minhas luvas e botas. Passei por Snoqualmie Pass, onde trabalhei numa estação de esqui pela primeira vez que vim aos EUA, e já estava pronto pra pedir arrego a uma amiga. Mas eu tinha que continuar, até que alguns quilômetros depois o queixo batendo de frio indicava que era hora de parar. Confesso que fiquei chateado comigo mesmo. No primeiro dia tinha conseguido andar apenas um pouco mais de 100 km, dos 5500? E eu já me sentia acabado!

Segundo Dia:

Após uma boa noite de descanso em Ellensburg, Washington, o sol batendo na janela me deu o ânimo que eu precisava para partir e seguir para o sudeste. Gastei um bom tempo secando com um secador de cabelo minhas luvas e as botas e então continuei subindo a serra, dessa vez com muitas curvas e com a paisagem mudando drasticamente, de florestas de pinheiros gigantes a uma vegetação mais desértica. Foi uma viagem relativamente seca apesar de algumas chuvas de tempestade isoladas. Estava curtindo tanto poder pilotar sem chuva que eu tive uma atenção especial para as nuvens escuras e espessas de chuva (Cumulus Nimbus) que eu via no horizonte, torcendo que não estivessem na minha rota. Mas quando fui aproximando de Pendleton, Oregon, aquelas nuvens começaram dar um tom dramático á paisagem. Em momentos como esses eu senti muita falta de não poder pegar a câmera e tirar fotos. A chuva começou a cair sim, mas ela não me preocupou tanto como o vento, que após eu parar em um posto de gasolina, confirmei no meu i-phone, estava a 35Kts (65km/h)! E assim como eu aprendi a “caranguejar” em um avião com um vento lateral, logo eu percebi que é mais ou menos a mesma coisa em uma moto, mas o cuidado é especial numa ultrapassagem, princialmente de um caminhão, para corrigir a inclinação da moto, de acordo coma a variação do vento. Após a passagem da tempestade continuei pela estrada que passava por típicas cidades de filmes de “faroeste”, como Baker city no estado de Oregon. Cheguei em Boise, Idaho, no fim da tarde, onde passei a noite em um albergue. Apesar do cansaço, caminhei um pouco pela cidade que me impressionou pela quantidade de gente caminhando pelas ruas e pelos bares e restaurantes com mesas e cadeiras na calçada, num clima bem parecido ao brasileiro.

Terceiro Dia:

Acordei bem cedo no dia seguinte, e Boise ficou pra trás. O nascer do sol iluminava a estrada que começava ficar cada vez mais reta em uma paisagem cada vez mais deserta. Planejar as paradas em postos de gasolinas começaram a ter uma prioridade maior, já que eles se tornavam cada vez mais raros. Como um tanque me levava por aproximadamente 100 milhas e contando que muitas vezes postos estão distantes a mais de 50 milhas entre si, se eu deixasse passar um significaria ficar parado na estrada, no meio do deserto. E como muitas vezes eu tinha que adentrar em cidadelas que estavam fora da estrada, abastecer tomou uma boa parte do meu tempo. Mas não deixavam de ser uma experiência à parte, poder conhecer um pouco da vida rural norte-americana, tão pouco divulgada. Bliss que significa benção em português, é uma dessas vilas rurais que parei para abastecer já usando o tanque reserva. Uma verdadeira “bênção” com seus campos de plantio, banhados por um rio, que depois fui observar, se chamava “Snake River” que eu lembro de sempre admirar nos descansos de tela que vinham com o windows antigamente. Provavelmente devido às suas curvas acentuadas ele leva esse nome que em Português significa, “Rio Cobra”. Outro lugar bem interessante que me salvou com a santa (e cara!) gasolina se chamava, Middle of Nowhere, ou Meio do Nada, em Português. E foi nesse meio do nada, no deserto, onde paguei pela gasolina mais cara de toda a viagem: U$4,59 o galão (aprox R$ 2,40/litro).
O estado de Utah chegou, e com ele suas formações rochosas incríveis, num terreno desértico muitas vezes a mais de 7000 pés (2133 metros) de altitude. Ao longo da estrada as mais diferentes formas de relevo surgiam, com suas pontas abruptas e bem definidas, camadas sobre camadas de uma rocha vermelho alaranjado. Pelo menos consegui parar em uma área de descanso onde eu pude fotografar parte dessa formação. Essas áreas de descanso são interessantes e muito comuns nos EUA e no Canadá, onde o governo oferece banheiros, água, máquinas de vender lanches e mesas e cadeiras para descanso. Geralmente não se distanciam por mais de 40 milhas uma da outra. Me aproximei de Laramie, perto de Cheyenne, no estado de Wyoming, com o por do sol mais uma vez brilhando no retrovisor. Porém esse sol que trazia essa sensação serena e de missão cumprida, parecia querer me castigar no dia seguinte.

Quarto Dia:

Ainda no estado de Wyoming, após partir de Laramie as seis da manhã, uma fumaça se estendia a longas distâncias. Passei por Cheyenne e uma conferida nas imagens de radar me fizeram tomar a decisão de seguir para o sul em direção a Denver em vez de continuar na mesma estrada para leste, onde céu coberto e chuvas tomavam conta da região. Era um desvio de aproximadamente mais de uma hora, que eu não hesitei em tomar para garantir um percurso mais seco. Mas eu não esperava que fosse tão seco, e quente. Ainda de manhã, o bafo que vinha do asfalto e a fumaça que se estendia pelo estado do colorado, dava um aspecto infernal aquele percurso, e adentrando pelo estado de Kansas a fumaça diminuiu mas o calor e também o vento chegavam a ser quase insuportáveis. Até a moto parecia não estar gostando daquilo pedindo troca de tanque em distância irregulares. Em uma dessas trocas de tanque ela chegou a engasgar, perder força e parar no meio da estrada, me dando um baita susto. O asfalto estava tão quente que dava a impressão de que a minha bota iria derreter! Mas a moto ligou e eu fui direto pro posto de gasolina mais próximo, que foi o menos digamos, convencional. Como todos os postos de gasolina por aqui, você mesmo abastece o seu tanque (com exceção do estado de Oregon) e paga com cartão de crédito, direto na bomba. Nesse caso, no meio de um outro nada, tive pagar dentro do estabelecimento desse posto que era na verdade a própria casa de um casal de velhinhos, que me tratou com muita cordialidade. Na sala estavam sentados um vovô e uma criança que devia ser seu neto, tentando se refrescar com o ventilador que tentava abanar aquele calor. A velhinha saiu da casa para ver na bomba quanto eu tinha colocado de gasolina e me sentindo um idiota de perguntar se aceitava cartão ela me respondeu, pra minha surpresa que aceitava VISA e Mastercard, parecia até propaganda de cartão de crédito. Nessa viagem, confesso que senti falta de poder interagir mais com as pessoas, conhecer os locais, ter tempo de poder explorar os lugares com mais calma como tento fazer sempre, mas como eu tinha um certo prazo pra chegar na Florida, isso não foi possível. Mas ainda assim, vez ou outra no posto de gasolina sempre tinha alguém querendo puxar um papo, perguntando pra onde eu estava indo quando viam que a placa era do estado de Washington, principalmente como comecei ficar cada vez mais longe daquele estado. Mas naquele dia o comentário principal era: Que calor! A cada parada num posto de gasolina eu suava tanto que me molhava mais do que quando estava chovendo. Para se ter uma ideia, em quase todos os postos de gasolina o calor era tanto que eu parava e comprava uma garrafinha de água ou gatorade, e mesmo tomando umas oito durante todo o dia, eu só precisei usar o banheiro pra fazer xixi no fim do dia quando cheguei em Kansas City. (Com mais um por do sol no retrovisor da moto).
Observação: A fumaça que esteve presente em boa parte do meu trajeto fui saber depois de chegar a Flórida que vinha do maior incêndio da história do estado do Colorado, chegando a deixar vítimas fatais e virar notícia no mundo todo.

Quinto Dia:

Passar todo o dia em cima de uma motocicleta, sentindo a vibração do motor por horas, cobrindo distâncias continentais em um par de dias, pode parecer loucura. Mas parece que somos seres altamente adaptáveis, e de uma certa forma já estava me sentindo parte da motocicleta. De noite, pronto pra dormir eu sentia a mão formigando como se eu tivesse ainda segurando o guidom e mesmo nos sonhos eu ainda estava em cima da moto. As vezes eu me sentia anestesiado, e a quantidade de horas que eu havia percorrido no dia ou a que ainda tinha a percorrer já não era tão importante. No primeiro e no segundo dia era difícil não contar o tempo, mas depois a ansiedade passa, e o tempo simplesmente passa e como em um filme fui curtindo a paisagem que passava e mudava. Esse quinto dia me marcou por uma presença forte de “civilização”, cidades e trânsito. Depois de tanto andar por desertos e espaços “vazios”, quando um par de prédios e construções se aproximam a gente até estranha. Pela manhã atravessei Kansas City e devido ao horário enfrentei um trânsito que tentou me tirar do meu estado de paz. Como é fácil se chatear no trânsito, parece que esquecemos que dentro de cada máquina, (que não dá seta para mudar faixa, que cola na sua traseira, que esquece de olhar no retrovisor, que buzina agressivamente uns aos outros) existe um ser humano que talvez está atrasado para o trabalho, que perdeu o melhor amigo em um acidente, que sofreu um certo tipo de abuso. Quando me livrei do trânsito em Kansas City, eu fiquei me perguntando o que faz a população de um estado, uma cidade ou mesmo de um país agir tão diferente no trânsito uma da outra. Será que como agimos dentro de um veículo é o que somos no dia a dia? Talvez ainda buscando por respostas não me dei conta de que tinha cruzado o estado de Missouri e logo atravessava outra cidade grande que eu não tinha ideia de que fosse tão grande e interessante: St Louis! A surpresa foi ver um arco gigantesco (que eu eventualmente já tinha visto em alguma foto antes) e aprender sua localização. A vontade de parar e conhecer aquela cidade era grande, mas ela passou como em um filme e logo chegava em Mt Vernon em Illinois, para almoçar uma barra de cereais de cima da moto e seguir rumo ao sudeste cortando o estado de Kentucky e o surpreendente Tennessee! Que estado lindo! Tennessee é um dos estados por onde passa o monte Apalache e estrada que eu seguia passava por essa cordilheira cheia de curvas, sobe e desce, cachoeiras, pontes e entre essas paisagens de tirar o fôlego passei por duas outras cidades de tamanho respeitável: Nashville e Chattanooga. O pôr do sol fez seu espetáculo nas montanhas do Tennessee, mas dessa vez ele não indicava que era hora de descansar, dessa vez, meu corpo aguentou seguir viagem até às 11 da noite. O plano era cruzar toda Atlanta, para evitar qualquer congestionamento na manhã seguinte e garantir uma chegada mais cedo em Fort Lauderdale.

Sexto dia:

Depois de percorrer um pedaço bom do chão da Georgia e me certificar de que a tempestade tropical Debby já estava fora da minha rota, eu podia ver aos arredores de Valdosta, as placas indicando que Flórida se aproximava. Parei em um posto de gasolina para abastecer e postei no Facebook: “Flórida à vista!” Já era quase o meu grito de vitória. Especialmente naquele caminho fui pensando em como eu era sortudo de em cinco dias de estrada percorrendo mais que o dobro do que a moto já tinha percorrido desde que saiu da fábrica, à 13 anos atrás, não ter tido nenhum problema mecânico. Eu pensei comigo quando saí de Seattle que eu deveria me preparar e aceitar que um problema seria quase inevitável, considerando essa distância. Uma vez eu li o livro: “Zen, e a Arte da Manutenção de motocicleta”. Apesar de não se aprender a consertar moto, o paralelo que o autor faz com os problemas mecânicos que ele e seu filho encontram ao cruzar os Estados Unidos (de Minnesota à Califórnia, 17 dias - um trecho bem menor que o meu) e suas discussões filosóficas, de uma certa forma me prepararam a enfrentar melhor o fato de que quando girei a chave para ligar a moto naquele posto, ela não deu sinal de vida, e suas consequências. Desconfiei da bateria, claro, e também talvez do alternador. Eu tinha duas alternativas: Tentar pegar no tranco ou encontrar um mecânico. Claro, tentei pegar no tranco, mas como era tudo plano(Flórida é tão plana que se brinca – talvez seja verdade - que o morro do descarte de lixo é o ponto mais alto do estado), não tive sucesso. Mas eu tentei de novo e de novo, fazendo todo o esforço possível com os pés, mas nada. Consegui alguns números e tentei ligar para alguns mecânicos mas como estava na estrada e longe de alguma cidade grande voltei a tentar a empurrar a moto pra frente pra trás, torcendo que ela desse sinal de vida. E eis que surge o primeiro anjo da minha viagem. Alguém surgiu pra me ajudar a empurrar a moto e na segunda tentativa para meu grande alívio: brroooomm. Segui estrada e mesmo faltando várias horas pra chegar em casa eu estava certo de que não desligaria a moto até chegar lá. Mas... Eu tinha que abastecer, será que eu podia abastecer com a moto ligada? Mas como eu abasteceria a moto se eu precisava da chave que estava na ignição pra abrir o tanque? No próximo posto, quando desliguei a moto, me senti um assassino, e como esperado ela não ligou de novo, e outra hora se foi tentando pegar no tranco e sendo ajudado por outros “anjos”. Meu plano era conseguir chegar em Orlando, onde eu sabia que poderia encontrar um mecânico e passar a noite. La cheguei, abasteci, outra hora foi gasta para ligá-la e lá fui eu tentar encontrar um mecânico. Confesso que não tentei muito. Desisti na primeira tentativa, quando vi que que o mecânico funcionava até as 18. E já era depois disso. Como faltava 220 milhas pra chegar em casa, se eu parasse em um posto a aproximadamente 100 milhas eu teria que fazer a moto funcionar no tranco apenas uma vez. Como a moto não tem mostrador de gasolina, eu estava contando com o odômetro, mas como ela ficou ligada parada em Orlando por uns 30 minutos, aquilo já não era tão preciso, e a chance de acabar a gasolina antes de chegar no posto era grande. Se alguém duvida de Murphy, dessa vez sua Lei funcionou direitinho. A moto ficou sem gasolina na saída para o posto, que ficava a 30 minutos de caminhada do outro lado da estrada. Nada mal, depois de tanto tempo na moto porque não uma caminhadinha com uma mochila gigante nas costas, capacete e apetrechos (num calor dos infernos)? Resumindo, depois de um tremendo esforço físico caminhando para o posto voltando com gasolina, empurrando a moto na rampa do viaduto, pegando no tranco (dessa vez foi fácil- na descida da rampa!) pegando no tranco outra vez depois de completar o tanque no posto (mais outra hora), e o último trecho com visibilidade restrita pela chuva, cheguei finalmente em casa tarde da noite. Cumprindo minha palavra de que eu chegaria na quarta-feira! (só pegou um pedacinho da quinta-feira...)
Da viseira do meu capacete, vi as rodas da moto passando por milhares de quilômetros, cinco “pôres” de sol, Montanhas Rochosas, Apalaches, 12 estados americanos, um carro pegando fogo, cinco carros de polícia rendendo e apontando uma arma para um sujeito, neve, deserto, chuva, 3 casas sendo transportadas por caminhões nas estradas, dezenas de veados, cachorros, e outros animais mortos na beira da estrada, centenas de outros vivos e muitas outras coisas que eu não lembro agora. Eu sei que esse post saiu gigantesco, mas se você chegou até aqui, é porque você é minha mãe, ou no fundo tem uma vontadezinha de fazer algo parecido, e eu vou dar toda a força. Eu sei que existem riscos. Aliás, para tudo na vida existem riscos. Até de ficar em casa. Eu particularmente acho muito arriscado essa atividade de sentar no sofá e assistir televisão. Não nego que curto e a pratico uma vez ou outra, mas muita gente me diz que só temos uma vida e a ideia de ver o “mundo” através de uma caixa, sem meus próprios olhos me assusta. E deve assustar o navegador Amyr Klink também. Olha o que ele escreveu:
Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

sábado, 23 de junho de 2012

Do Pacífico Norte ao Sul da Flórida pilotando... de novo?


Muita coisa interessante tem acontecido enquanto N55473 não toma seu rumo para a América do Sul. Tive oportunidade de ir pra Seattle, Nova Iorque, Alemanha, Brasil, Porto Rico, República Dominicana, voltar para Seattle, subir as montanhas olímpicas para deixar as cinzas de uma pessoa que foi muito especial para mim e até jantar com a Hebe Camargo em Miami. Estava preparando todas as desculpas para justificar a falta de atualizações nesse blog, mas decidi simplificar em uma só palavra: Procrastinação. 
Mas, no meio do caminho, surgiu a chance de pilotar de novo, de Seattle à Miami, e a novidade é que nesse trajeto estarei em chão firme. Estou em Ellensburg, WA, onde fiz meu primeiro stop após muita chuva e neblina ao passar pelas montanhas de Snoqualmie Pass com uma Honda Magna 750cc. Uma motocicleta! Serão 5500 km a serem percorridos, que é distância de Buenos Aires na Argentina até um pouco depois de Manaus ou Belém do Pará. Tenho muito chão pela frente, e realmente torço para que seja bem mais seco e menos frio do que esse miserável primeiro trechozinho. A perspectiva é boa, porque o sol já esta brilhando na janela do hotelzinho, me chamando para o por... as duas rodas na estrada!



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sábado, 3 de março de 2012

Sim, ainda na Flórida...

Quando estava no aeroporto de Venice, acabei conhecendo um piloto de helicóptero e avião, que como eu já mencionei me deu uma "carona" num Eurocopter novo em folha até Miami. Carona está em aspas porque até então, eu não tinha nenhum plano de visitar Miami, na verdade eu já tinha até um quarto reservado em Venice. Naquele dia eu fui até o aeroporto para pegar alguma coisa que eu tinha esquecido no avião e então me apresentaram Kamal, que em cinco minutos de conversa me falou: "Estou decolando de helicóptero para Miami em uma hora, que vir junto?" -Claro!!!, disse todo animado sem pensar na logística de ter que passar no quarto onde estava hospedado, por a bicicleta dobrável no porta-malas do carro, devolve-lo na locadora e pedalar de volta para o aeroporto. Quarenta minutos se passaram e eu ainda estava na locadora, já meio que desesperado pensando em pedalar o mais rápido possível para o aeroporto que não estava muito perto, perguntei o atendente se existia a possibilidade de me darem uma carona. E não é que um dos clientes me disse que estava indo também para o aeroporto com um caminhão alugado e podia me levar? Coincidência?? Espera... Seguindo para o aeroporto a gente descobre que estávamos indo para o mesmo local: Sarasota Avionics! Só faltava a gente estar indo encontrar a mesma pessoa: Kamal E não é que era mesmo! Tudo conspirava para eu ter aquele inesquecível passeio de helicóptero e conhecer melhor aquele piloto que já trouxe várias aeronaves pilotando ao Brasil. Com todos os cinco assentos de trás só para mim fui curtindo o visual de costa oeste á leste desse estado plano que é a Flórida. A 500 pés, bem mais baixo do que estou acostumado a voar, sobrevoamos o parque Everglades e se o helicóptero não fosse tão rápido, e eu não tivesse tão interessado em observar como o Kamal pilotava aquela máquina, acho que eu até teria chance de ver um par de jacarés. O preço dessa experiência única foi alugar um carro quando cheguei em Miami dirigir por quatro horas para voltar para Venice. Quase nada né?! 

Na outra semana, quando eu decidi ir para Miami voando o cessninha, o Kamal ficou sabendo e me pediu para trazer de lá uns fones de ouvido. Encontrei com ele no aeroporto de Fort Lauderdale e como eu iria para Miami Beach, ele me ofereceu uma carona. De que? De helicóptero! Voamos ao longo da praia e ao lado dos prédios marcantes de Miami, junto com o por do sol. Em um deles Kamal pairou para poder dar um tchauzinho para esposa e para todo mundo que saía nas janelas para acenar também. Quando sobrevoamos um navio de cruzeiro pude ver também centenas de pessoas acenando para a gente. Deu uma vontade enorme de terminar meu curso de helicóptero! Mas uma coisa de cada vez né... Como por que não, aprender a pilotar um avião complexo e de alta performance como o Piper Malibu Matrix? Depois de parapente, planador, R22, Cessna 172, esse seria a próxima aeronave que eu colocaria as mãos nos comandos. Á essa "transição" se dá o nome de UP-GRADE, com letras maiúsculas mesmo. Calma, eu ainda amo o cessninha e juntos ainda chegaremos ao Brasil. Mas como o Kamal decidiu me treinar nesse avião incrível, não posso perder a oportunidade. Até porque só estourei um "dead-line" ainda: o natal. O próximo, é o casamento do meu irmão, em maio. E se eu estourar esse, tenho até o próximo natal para chegar em casa. (Brincadeira Thiago!)
Voar o Malibu com toda aquela instrumentação high-tech me fez sentir jogando um jogo, ou usando um simulador. Estranhei tanto o silêncio que pensei que a cabine era pressurizada. Só mesmo vendo as nuvens passando pela janela para acreditar que a gente estava realmente voando. Como co-piloto e tarefa de fazer a comunicação via rádio, meu maior desafio foi falar o prefixo do Malibu. Depois de meses voando apenas o Cessna November 55473, meu cérebro custou a entender que era hora  de dizer Malibu November 426M(ike)R(omeu), clear to take off (decolagem autorizada). Valeu Kamal!
Durante essa estadia acabei conhecendo também um jovem piloto da Lan Chile que comprou uma casa velha para reformar, e antes que ele mude estou dando uma mão na reforma da casa, garantindo assim um lugar para ficar e boas risadas. (As aventuras aéreas que tenho escutado do Jesse e de seus amigos - também pilotos da American Eagle, Spirit, etc, são no mínimo engraçadas para não dizer assustadoras) Valeu Jesse!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Amigo à primeira vista

Por quanto tempo estivemos juntos? Semanas, dias, horas? E se foram apenas minutos, será que ainda posso te chamar de amigo? Quanto tempo precisamos estar juntos para eu poder ser seu amigo? Será que você esta sempre presente na minha vida? Compartihando risos, conquistas, tropeços e choros? Será que você no mínimo se lembra do meu aniversário, ou de vez em quando me da um presente, ou mesmo um cartãozinho? O tempo esta passando e parece que não há necessidade de dizer adeus para sabermos que inevitavelmente a vida se reorganiza e uma hora ou outra percebemos que o que resta da gente é a saudade. Será que me iludi com a promessa da sua amizade eterna? Por que você fez isso comigo? Sabe porque? Simplesmente porque a gente na verdade nunca precisou de tempo para construir nossa amizade. A gente já estava conectado antes mesmo do ser humano tentar definir tempo com um começo, meio e fim. Você existe agora aqui dentro do meu, uhmm, ser (coração para os mais românticos, espírito para os religiosos). Mesmo que na forma da memória de apenas um riso, uma frase ou gesto de afeto. Talvez você pense que priorizei seguir viajando do que ficar ao “seu lado”. Ninguém disse que colocar os pés na estrada, a mochila nas costas e sair do ninho de conforto seria fácil. São muitos desafios, muitas lições aprendidas nem sempre da forma mais suave, mas é assim que vou me conectando à pessoas tão especiais nesse mundo como você, meu amigo. Afinal, como disse Vinícius de Moraes: "Não fazemos amigos, reconhecemo-os."



How long have we been together? Weeks, days, hours? What if it was just for couple of minutes, could I still call you friend? How long do we need to be side by side so I can be your friend? Are you always present in my life? Sharing laughs, achievements, stumbling and crying? Do you at least remember my birthday, occasionally give me a gift, or even a small card? The time is passing by and it seems there is no need to say "adios" to know that life inevitably rearranges, and sooner or later we realize that what remains is "saudade". (A word in Portuguese that expresses a feeling like nostalgia but more in a positive way - without the load of moaning) . Was I deceived with the promise of your eternal friendship? Why did you do this to me? Do you know why? Simply because we don't need "time" to build our friendship. We were already connected before the humans tried to define time with a start, middle and end. You now exist inside my, uhmm, being (for the romantic people: heart. Spirit, to the religious). You are here at least as a memory of a laugh, a phrase or gesture of affection. You might think that I prioritized traveling rather than being to "your side". Nobody told me that getting my feet on the road, with my backpack and out of the nest of comfort would be easy. There are many challenges, many lessons learned not always in the smooth way, but that's how I'm connecting with people so special in this world like you, my friend. After all, as Vinicius de Moraes, a brazilian poet, said: “We do not make friends, we recognize them.