segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Quase 7000 quilômetros, 8 dias, 79 horas dirigindo ao lado do meu irmão. Parte 2.


Na manhã seguinte lá estava eu, num hospital nos subúrbios de Dallas, para tratar das minhas amígdalas que não paravam de inchar e de doer. Fiquei umas três horas no hospital, para ser atendido pelo médico em si por no máximo três minutos e sair do hospital com um “queixo caído”, uma receita médica e uma conta no valor de novecentos dólares. Para se ter uma idéia esse era o valor médio que eu esperava que toda a viagem custaria com gasolina, hospedagem e alimentação. Mas imprevistos acontecem e nos conformar quando acontecem é o máximo que podemos fazer. Por conta da garganta passei boa parte da viagem dormindo enquanto meu irmão dirigia nas planícies desertas do Texas e do Novo México. Chegamos no nosso destino em Albuquerque onde fomos convidado por alguém do couchsurfing a nos hospedarmos na sua casa. Funciona assim: Eu deixo meu itinerário público na comunidade dos viajantes do couchsurfing e para cada parada, eu poderia deixar um pedido público de um lugar para dormir, sem ter que pedir pra alguém específico. Dessa forma recebemos uma meia dúzia de convites. Pelo perfil da pessoa se pode ter uma ideia geral da personalidade e dos gostos da pessoa com que você vai ficar. Se a descrição da pessoa não te agradar a gente simplesmente agradece e recusa o convite. Marc foi um dos que nos convidou e quando se viaja assim o que a gente tem que esperar é no máximo um sofá, mas a casa de Marc era muito grande e acabou que eu tive um quarto só pra mim e meu irmão um outro só pra ele. Em se tratando de couchsurfing, um “luxo” só! Infelizmente não tivemos muito tempo para conhecer nosso “host”, mas ele deixou boas dicas de como melhor aproveitar nossa manhã seguinte. 


Após trocar o óleo e filtro do carro, rotacionar os pneus e dar uma geral básica, seguimos para a base do Sandia Tram, que é o teleférico mais longo do mundo, como diz na internet, nas propagandas, no ticket para pegar o teleférico. Mas antes mesmo de subir eu desconfiei, se era o mesmo o mais longo. A subida em si impressiona. Vai do nível da cidade de Albuquerque (aproximadamente 2 mil metros) à 3163m. Para se ter uma ideia, mais alto que o pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil. O relevo impressiona  com os granitos gigantescos pelados e pontudos. Durante a subida o operador vai contando os fatos impressionantes (como o custo absurdo de apenas trocar os cabos de aço ou sobre o avião da TMA que décadas atrás colidiu com a montanha). O operador tem que ser um verdadeiro artista. Fico imaginando como uma pessoa pode contar as mesmas piadas e fatos tantas vezes ao dia e ainda parecer que esta contando pela primeira vez. É de tirar o chapéu! Com um visual daquele eu pensei que seria desnecessário um animador de atração. Pra muita gente entretanto, ficar comprimido em pé, numa “lata de sardinha”, pendurado por um cabo em um despenhadeiro por 15 minutos pode passar longe de uma experiência agradável e eu podia ver isso nos olhos de algumas pessoas. Dava vontade de falar: “Relaxa e aproveita o visual. Não tem nada que você pode fazer agora” e era exatamente isso que operador tentava fazer, mas com outras palavras, distraindo, tentando convencer que os dólares gastos valeram a pena. Afinal, como eles sabem bem promover, é o teleférico mais longo do mundo. Mas, será mesmo? Não. Eu mesmo já estive em teleféricos nos alpes da Suíça e da Áustria que deveriam ser ainda mais longos apesar de não parecerem tão altos. Eu tento imaginar qual seria a reação dos americanos ao saberem que temos um teleférico lá na América Latina mesmo, em Mérida na Venezuela que vai de 1640 metros a 4765 metros. Ou que existe outro na China que alcança incríveis 7455 metros (com a base em 1279 metros). Todo lugar que eu vou, não somente nos EUA, mas principalmente nesse país, eu vejo todo o tempo: O mais isso, o maior aquilo do mundo e me impressiona que não deixam de mentir mesmo nos dias de hoje onde a informação e a verdade está na palma da mão de tanta gente. Quando é óbvio que eles não podem promover algum lugar com fatos eles apelam pra subjetividade: Como a praia mais bela do mundo. E cá pra nós, podemos facilmente promover o bondinho do Pão de Acúcar nos seus humildes 1300 metros como o mais belo do mundo, não? (Ou pelo menos o mais doce.)


Quando aterrizamos no topo da montanha, a sensação é de que havíamos sido tele-transportados, para longe, bem longe do centro urbano de Albuquerque ou das planícies áridas que envolvem a cidade. Lá em cima, havia muito mais vida natural e as árvores da floresta nacional de Cibola pareciam crescer até no meio das rochas. A diferença de temperatura era drástica e o vento frio soprava as nuvens na nossa altitude nos impedindo muitas vezes de enxergar a planície lá embaixo e nos dando a verdadeira sensação de estarmos no topo do “mundo”. Tão alto e ainda assim, no meio da trilha por onde andávamos,  a prova de que à muitos anos atras até aquela montanha já esteve embaixo de água. Uma placa sinalizava na rocha a marca de um fóssil marítimo! Não, não tentavam vender a ideia de que era o fóssil mais antigo do mundo! Ainda bem! Isolada pela floresta e pela altitude, numa esquina do precipício da montanha, uma casa de pedras chamava a atenção. Realmente parecia ser uma continuação da própria montanha rochosa e foi construída ali com essa intenção. 
Fóssil marítimo
Era hora de descer, seguir viagem e conhecer os outros "mais e maiores" dos EUA. Dali pra frente teríamos imensos desertos para atravessar mas o visual valeria a pena afinal no dia seguinte chegaríamos no Grand Canyon!

Outras fotos aqui!



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Quase 7000 quilômetros, 8 dias, 79 horas dirigindo ao lado do meu irmão. Parte 1.


Quanto tempo é tempo demais para ficar do lado do seu irmão de sangue, lado a lado, dentro de 1 ou 2 metros quadrados? Meu irmão William, por ser sete anos mais velho do que eu nunca foi na verdade minha melhor companhia de infância. Mas o tempo passa e quando o irmão mais novo ganha a etiqueta de adulto e a suposta maturação, as diferenças passam a não ser tão relevantes. Em teoria.
Com a visita do meu irmão aos Estados Unidos, decidimos dirigir juntos de Miami à Seattle. Uma das maiores distâncias que se pode ir de uma ponta a outra nos Estados Unidos. Foram 6900 km percorridos em 79 horas de viagem, dentro de 11 estados americanos. Detalhe:  O raio médio da terra é de 6700 km. Como adulto nunca passei tanto tempo ao lado dele e fazer essa viagem na sua companhia foi algo muito especial.
Partimos de Miami com direção à Orlando, onde jantamos com a “prima” Bárbara de Goiânia que visitava com as amigas os parque da Disney, e também o primo Juvenal, de João pessoa. Foi um encontro raro de gente de vários cantos do Brasil (até do Pará!) em uma rápida parada para abastecimento. 

De bucho cheio seguimos estrada por mais 6 horas até chegar em Pensacola às 4 da manhã. Uma cidade de qual estado mesmo? Flórida. Ainda na Flórida, mesmo depois de mais de 10 horas de direção! Nada mal para o primeiro dia. Mas onde se hospedar de madrugada? Pelo couchsurfing eu tinha conseguido um lugar para a gente ficar de graça, mas como já era tarde demais, tivemos que passar a oportunidade e ficamos em um motel. Motel com meu irmão? Motel nos EUA não tem o significado que temos no Brasil. Por aqui é um simples hotel bem conveniente para uma noite de descanso. São relativamente baratos e muitos têm até piscina. Existe uma rede, Motel 6, (6 porque acostumava ser U$6 por noite quando foi criado, hoje o preço médio está em torno de U$50) que está em todos os lugares. Os quartos são tão padronizados, que não importa onde você esteja, no sul, no norte, no deserto, na neve, você vai se sentir no mesmo lugar. 
Na manhã seguinte, mandei uma mensagem para o nosso suposto anfitrião (pelo couchsurfing) em Pensacola, perguntando que praia ele recomendaria para a gente dar um pulo antes de seguir viagem. E ele, Chris, me responde, numa plena terça-feira pela manhã, que estava na praia de Pensacola, trabalhando de salva-vidas numa torre perto do pier. Quando cheguei lá ele parecia estar trabalhando no paraíso. Numa praia de areia branca, água clara e morna do golfo do México. Como havia outro salva-vidas na torre, ele desceu para bater papo com a gente e até nadamos juntos, e como não queríamos sair da água ali seguimos conhecendo nosso novo amigo, conversando sobre nossas vidas e várias outras coisas. Quando o assunto chegou nos tubarões que ele via ocasionalmente naquela praia do golfo do México decidimos que era hora de sair da água e seguir viagem.

Nosso novo amigo, Chris e meu irmão, William na praia de Pensacola.

 As estradas federais americanas sempre impressionam pelo padrão de conservação e segurança, mas foi decepcionante avistar durante esses 7000km, 7 buracos na estrada. Um buraco para cada mil quilômetros rodados. Se você não entendeu, isso foi uma ironia, ok? Mas é verdade! As pontes e estradas suspensas em que passamos ao cruzar os lagos, rios e pântanos dos estados de Mississippi, Alabama e Louisiana realmente nos surpreenderam. Sem saber  passamos por quatro das maiores pontes dos EUA, e ainda assim não passamos na maior de todas, a ponte do lago Pontchartrain que estava muito perto da nossa rota. Essa ponte tem 38.4 km mas não deixamos de nos impressionar ao passar pela terceira maior de 36.7 Km, uma ponte sobre um pântano (Manchac Swamp Bridge). Para efeito de comparação, a maior ponte do Brasil, a Rio-Niterói, tem “apenas” 13.2 km. Agora quer saber qual a maior ponte do mundo? Tem inimagináveis 164.8km de extensão. Claro, na China.


Depois dessas curiosas travessias eu já me preparava para o tédio de atravessar as planícies do Texas mais uma vez, quando me surpreendi com meu irmão se entretendo enquanto atravessávamos cidadezinhas com cheiro de abandono daquele estado. Entre essas cidades fantasmas o tempo parecia querer assustar na estrada. Não vimos nenhum tornado ou coisa parecida, mas as nuvens as vezes pareciam formar o cenário para tal, e por alguns segundos o céu parecia despencar em torrenciais de água. Mas a tempestade logo ficava para trás e o que víamos era céu azul na frente e um arco-iris no retrovisor. Já eram umas 2 da manhã quando chegamos em Dallas e pudemos contemplar as luzes da civilização vertical sem ter que nos agarrar em um engarrafamento. 
Ainda naquela noite eu já sentia que seria inevitável sair daquela cidade sem visitar uma das atrações mais caras desse país. (Próximo capítulo :P)

Algumas fotos da estrada:







Loja de armas em uma cidadela no meio do nada (texas)

Chegando em Dallas, TX de Madrugada



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Qual a melhor parte do seu dia?


Qual foi a melhor parte do seu dia? Eu escutaria essa pergunta quase todos os dias enquanto eu aprendia a pilotar em Seattle e invariavelmente eu responderia: “Voar”. Os dias em que eu não pudesse voar eu teria que vir com alguma resposta do tipo: “As nuvens”. Então ela me pediria para falar mais sobre elas. Talvez ela não estivesse muito interessada em saber se eram altostratus ou stratoscumulus, mas na minha inocência eu responderia tecnicamente, com todos os detalhes. Ela escutaria com toda a atenção e absorveria tudo o que eu tinha para dizer. Inevitavelmente ela iria esquecer   já que ela estava no estágio inicial da doença de Alzheimer. Com o passar dos dias, ela me faria aquela mesma pergunta com mais frequência, talvez duas, três ou mais vezes por dia. Eu não me importava de responder o mesmo outra e outra vez. No caminho eu estava praticando meu inglês enquanto ela corrigia minha pronúncia. Seu nome era Barb, uma professora entre outros, de inglês. Provavelmente por causa de sua profissão uma das últimas habilidades que a doença lhe roubou foi a sua fala e também sua apreciação pela vida. Quando a morte parece estar mais perto, a gente aprende a rever valores, mas eu podia perceber que seu otimismo era parte de seu espírito e não de seu estado.
Eu conheci a Barb aproximadamente na mesma época quando ela foi diagnosticada, há uns cinco anos atrás quando os médicos diziam que ela “viveria” ainda uns cinco anos mais. Durante esse período difícil, ela e seu marido não apenas me deu boas vindas a sua casa, como me fez também sentir como parte da família. A rápida conexão que eu tive com ela é algo difícil de explicar e eu tenho que admitir que eu tenho lágrimas nos olhos enquanto escrevo essas linhas e muitas vezes quando penso sobre isso. Meu sentimento foi de que tínhamos nos reconectado depois de nos termos separados por muito tempo e que a gente teria um tempo limitado para estarmos juntos antes que ela tivesse que partir de novo. Sua pergunta favorita, martelaria na minha cabeça muitas vezes por dia até mesmo quando estávamos distantes um do outro e isso teve um efeito muito grande na minha vida. Numa época em que eu acostumava a sonhar acordado a maior parte dos dias eu iria aprender que o dia mais importante na nossa vida não está no futuro nem no passado. É o dia de hoje. É onde/como estamos, quem somos agora mesmo. Estar consciente do dia presente, sem máscaras, fantasmas do passado ou medos do futuro pode ser um desafio a alcançar, mas é também uma graça. Com isso ela mantinha um sorriso constante no rosto, mesmo sabendo da sua doença.
Eu nunca tive a oportunidade de levar a Barb para voar, mas eu penso constantemente nela quando eu voo. Ela teve parte significativa no meu desafio de aprender a voar, de aprender inglês e também no meu voo de mais de 100 horas em um pequeno avião do Canada ao Brasil. Por essa causa e em sua homenagem decidi colocar na matrícula do cessninha exportado para o Brasil, suas iniciais. O avião ficou agarrado em solo por mais de meio ano esperando uma autorização da ANAC e uma vistoria para voar pela primeira vez com seu novo registro brasileiro. Barb nos deixou no dia 25 de Julho/2013. No dia seguinte o avião estava liberado para voar e meu amigo, Karol, decolou após ouvir da torre de controle: PP-BLJ (Barb Louis Johnson), decolagem autorizada.
Barb está livre, sem limites e agora que ela se foi eu ainda posso ouví-la me fazendo sua pergunta favorita, e ela sabe, onde quer que ela esteja, que a resposta agora é a memória dela me perguntando:  “Qual a melhor parte do seu dia?”



What was the best part of your day today?  I would have that question asked almost every day during my pilot training in Seattle and invariably I would answer:  "To fly". On one day or another I would not be able to fly and I would have to come up with an answer, like “The clouds”.  Then she would ask me, to tell her more about them.   I was not sure if she wanted to know if they were Altostratus or Stratocumulus clouds, but in my innocence that’s what I would answer  and explain it with all the details. She would listen carefully and absorb all I had to say, but  then she would forget because she had "early onset" Alzheimer's disease.  With the passing of the days she would ask me that same question with more frequency ,  maybe two, three or more times a day. I would not mind having to answer the same again and again. In this way, I was practicing my English and constantly being corrected. Her name was Barb and she was an English teacher and because of that the last ability the disease took from her was her speech, and  also her appreciation for life. One could say that when death is near it forces us to change some values, but I could tell that her “positiveness” was inherent to her spirit not to her state. 
I got to know Barb about the same time that she was diagnosed, about five years ago, when doctors were saying she had  about five more years to live. During these  hard “times”, she and her husband not only welcomed me to their house but made me feel truly part of the family. The fast connection I had with her is something hard to explain and I have to admit I have tears in my eyes when I write these lines and every time I think about it. It felt like we reconnected after having been separated for a long time and then we had a  new  time frame to enjoy ourselves before she had to go again. Her favorite question would hammer in my head many times a day even when we were distant and that has had a huge impact on my life. At a young age when I used to day-dream a  lot,  I would learn that the most important day of our life is not in the future nor in the past. It is today; where/who/how we are right now. Being conscious of the present day without any masks, ghosts of the past,  or the fears of the future can be a challenge to achieve, but it’s also a gift and Barb knew that. That’s where her constant smile came from,  even knowing about her disease. 
I was never able to take Barb flying, but I think constantly about her when I do. She was such a big part in my challenges learning to fly, improving my English, and then flying a little airplane for more than 100 hours from Canada to Brazil that I decided to have her initials in the Brazilian registration number after the airplane export process was done. The airplane was grounded for more than half a year waiting for an authorization to fly for the first time with it’s new call sign. Barb passed away on the 25th of July/2013. On the very next day the authorization was released and my friend, Karol, flying the airplane took off after hearing from the tower: PP-BLJ (Barb Louise Johnson) clear for take off.                                                                                                     
She is now free, limitless, and now that she is gone I still can hear her asking me her favorite question, and she knows, wherever she is right now, that my answer is the memory of her asking me: “What was the best part of your day?”

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Belém (do Pará): "Paris n`América"

Aproximação em Belém
Chegando para a aproximação em Belém tive que voar no meu primeiro corredor visual. (Corredor visual é uma rota de voo pré-estabelecida basicamente para pilotos que podem ver fora da janela e navegar pelo relevo por exemplo. Para voar dentro de nuvens é necessário seguir regras mais rígidas e obedecer com precisão aos controladores). Como nunca tinha voado em um corredor visual antes, (tão comuns no Brasil) deixei claro ao controlador de aproximação de Belém que eu não era familiar com a área. Ainda assim ele me pediu para relatar quando eu avistasse o “mercado ver-o-peso”. Como eu não sabia o que era, perguntei. Ele me disse que era uma feira e que eu deveria ver várias tendas juntas. E foi assim, pelo rádio do avião, que eu fui apresentado à maior feira ao ar livre da América Latina! Me senti um idiota, por não saber desse mercado, ainda mais quando cheguei para ver de perto. Quanta diversidade! Quanta brasilidade! Frutas de todas as cores, temperos de todos os cheiros, gente de todo tipo. Tudo isso emoldurado pelo art nouveau da belle époque. Soa chique né? Para quem não sabe, (eu também não sabia) Belém já foi considerada a “Paris n’América” na época da borracha e muitas de suas construções ainda mostram sua relevância naquele período. Como o próprio mercado, cujas construções de ferro foram importadas da Europa para seguir a tendência artística francesa, à mais de um século atrás.


Mercado Ver-O-Peso no fundo



Do albergue onde me hospedei, Amazônia Hostel, fui conhecer alguns dos principais lugares da cidade a pé. Saí pela manhã, para evitar a chuva marcada diariamente para os tardes. Caminhei pela histórica estação das docas, onde vários passeios pelos rios e pela Amazônia eram oferecidos. Passei por várias fachadas lindas de casarões e igrejas do período colonial, pelo mercado e como tinha tanta coisa para ver ainda, quando a chuva chegou eu ainda estava caminhando. Ela chegou dramática logo após as nuvens negras e os trovões anunciarem sua vinda. Como o calor já era intenso era difícil saber se eu fiquei molhado de suor ou da água de chuva. Continuei minha caminhada pelas ruas histórias até chegar no Mangal das Garças. Fui explorando esse parque muito bem preservado com borboletário(o maior do Brasil?), várias espécies de aves, bichos e árvores enquanto esperava por um espetáculo marcado para o fim da tarde de uma plataforma elevada sobre o mangue: Um belo pôr do sol.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Voo solo de Macapá à Belém.

Voar entre as nuvens, seguindo os rios e admirar a selva lá embaixo me fez sentir como um pássaro... brasileiro! Dessa vez como não tinha ninguém voando comigo não me preocupei muito com as curvas e manobras fechadas, se é que você me entende. Me diverti sozinho, mas também tirei fotos e fiz vídeos de janela aberta para poder compartilhar essa experiência única.






Chegando em Belém (do Pará).

A capital do meio do mundo: Macapá

Do avião, ainda no hemisfério norte eu via: O hemisfério sul, Macapá, o rio Amazonas e claro: a pista de pouso!
Mar Amazonas. Não, não, Rio!
Uma semana depois de chegar no Brasil estou dentro do cessna sozinho e escuto no rádio, pela primeira vez em Portugês: “November 55473, decolagem autorizada.” Confiro minhas luzes, aciono o transponder. Mistura: Rica. Ar quente do carburador: Fechado. Gradualmente empurro a manete de potência e aos poucos o motor do avião mostra sua força e ganha velocidade. Quando o ponteiro do velocímetro marca 55 nós eu deixo que o avião se suspenda pelo ar e de repente o chão vai ficando cada vez mais longe. Me sinto colocando um óculos para assistir o mundo em 3D. Na minha frente o rio Amazonas, como um oceano, de água doce. Ele é o maior rio do mundo em comprimento, mas não é isso que me impressiona. Da minha perspectiva é impossível saber que ele nasce lá no Peru e deságua quase sete mil quilômetros depois. Sua largura é o que chama atenção. Quando eu cheguei na semana passada em Macapá, até o Don achou que estávamos na costa de algum mar. Lá do chão é quase impossível ver a outra margem. Esses dias em que fiquei agarrado no Amapá, fui para a beira do rio quase todos os dias. É lá que toda atividade acontece, e foi lá que eu matei minha vontade de comer a nossa deliciosa comida brasileira. Depois de tanto tempo fora, um arroz com feijão parecia meu manjar e eu um deus. De bucho cheio, restava ficar admirando o rio. Ver as pessoas caminhando, as crianças fazendo arruaça, os meninos jogando bola na margem enquanto a maré baixava e no fim de quase todas as tardes, quando o vento ganhava mais força, dezenas de pessoas fazendo kitesurfing. A surpresa para mim foi saber que eu podia ir do hemisfério norte pro hemisfério sul, sem sair daquela cidade, e caminhando! Na verdade com apenas um passo você muda de hemisfério, já que Macapá é a única capital brasileira a ser cortada pela linha do equador!

Essa foto é quase um cliché do Brasil no exterior: Meninos jogando bola no Rio Amazonas.
Kitesurfing no Rio Amazonas
Do hemisfério norte ao sul, com apenas um passo!
Como a perspectiva de ficar agarrado em Macapá era maior que o previsto, o Don acabou voltando para os EUA e o Rafael seguiu pra Bahia de avião comercial. Outros pilotos também estavam agarrados e  me disseram que eu teria que ficar lá por no mínimo uma semana mais. A ANAC (ou Anarc como diz meu amigo Kamal) é a pedra no sapato de todo piloto brasileiro. Eu não imaginava que os empecilhos que ela colocaria na minha vida cresceria de uma pedrinha no sapato para uma rocha na frente do avião (como na frente de tantos outros). Na espera eu comecei a estudar minhas opções e me descobri literalmente ilhado. Macapá não se liga a nenhuma outra capital do Brasil por estradas e se não for pelo rio não há quase nenhuma opção. Uma delas seria pegar um ônibus e seguir mais de 500 km de estrada para chegar em Oiapoque (pra dizer que já fui lá) ou eu poderia simplesmente pegar um barco e visitar minha amiga Jô, em Manaus. Seriam apenas 6 dias de viagem pelo rio Amazonas passando por Santarém e confesso que já estava começando a ficar animado com a possibilidade quando soube que o cessninha estava liberado. 

Graças a Tower, empresa despachante recomendada pelo amigo Kamal, acabei conseguindo minha permissão de voo antes do que sairia normalmente com o conflito que a ANAC estava arranjando. Todo o processo de exportação tem sido conduzido com maestria pelo Luiz e o Rafael que trabalham por lá. A comunicação por quase um ano foi quase diária e já sentia que os conhecia sem mesmo nunca ter visto o rosto deles. Responderam todos os e-mails e trabalharam em todos os detalhes com muito profissionalismo e eficiência.

Fortaleza São José
De olho nos navios inimigos no Rio Amazonas: Fortaleza São José
Mais fotos: Clique aqui.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Chegando no Brasil


Estou a 5500 pés. Lá embaixo tudo é verde com pinceladas de ipê-amarelo. Tantas árvores juntas, aqui de cima, parece uma coisa só. Um único organismo. Vivo. Minha única referência é meu sistema de navegação para eu saber onde estou. No meu GPS, uma linha me indica que estou entrando em território brasileiro. Ainda que não haja nenhuma demarcação lá embaixo, nas árvores, sou tomado por uma intensa onda de alegria e emoção. Depois de tantas horas de voo e de tanto sonhar, estou voando no meu próprio país, pela primeira vez, por conta própria. Na minha imaginação eu posso escutar a música do tema da vitória. Eu abro a janela do avião e as árvores lá embaixo me acenam. A selva é o meu espectador. Ou o contrário? Não, não me iludo. Essa “conquista” nada mais é que uma vitamina para o ego. Eu sonho, estabeleço metas, mas tento não esquecer que sou parte de um sistema, da natureza. Para cada degrau que eu subo, eu lembro que alguém teve que colocar o tijolo na escada. Várias árvores trabalharam para gerar o oxigênio da combustão do motor e também do ar que eu respiro aqui em cima. Meu sentimento é de conquista, mas ainda mais de respeito e gratidão. Talvez até de dívida. Dessa perspectiva sou eu que reverencio a terra e não o contrário. Essa floresta tão grande talvez seja um dos únicos lugares na terra que estão intocados pelo ser humano. As árvores, os rios e os bichos lá embaixo parecem ser sobreviventes de uma guerra com os próprios homens. Queremos demais e muitas vezes esquecemos de dar nossa contribuição. A ganância da nossa raça é auto-destrutiva e se não fazemos nossa parte destruímos o sistema em que fazemos parte.

De repente escuto no rádio: “November 55473, central amazônico, na escuta?” É o controlador de voo, me lembrando que não estou sozinho e interrompendo meus devaneios. Ao aproximar de Macapá minhas boas vindas aos ares tupiniquins acontece seguida da seguinte informação: “Aeroporto interditado. Voo em espera requerido a noroeste da terminal”. 


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Passando pelo suriname entre duas asas e uma hélice. E Guiana Francesa.


Você deixaria de conhecer algum país por dizerem ser perigoso e violento? O que a gente mais escuta sobre países como México, Colômbia e Venezuela? É  muito triste ver pessoas que deixam de conhecer uma cultura diferente e suas pessoas com medo do que pode acontecer pelo o que foi visto na tv. No Brasil mesmo, deixamos de receber muitos turistas porque o que aparece na mídia lá fora nem sempre são as sete maravilhas. Eu me surpreendi quando visitei Bogotá, na Colômbia e várias cidades mexicanas. Sempre me senti muito seguro nas viagens por pior reputação que o lugar tenha.  Dos mais de 50 países que viajei, sabe qual foi o único onde fui ser assaltado? Brasil! Quando visitava as praias do Espírito Santo com um grupo de amigos da faculdade. Os “vilões” que a gente sempre vê nas mídias, estragando a imagem de um país e de uma cultura inteira, sejam ladrões, traficantes, assaltantes, são sempre a minoria, mas infelizmente eles sempre levam o destaque. Ligar a televisão para mim as vezes parece ver um filme de terror, é tanta coisa ruim sendo veiculada que a gente fica com medo até de sair de casa. Estamos de todos os lados sendo bombardeados pela cultura do medo. Na aviação, por exemplo, o que a gente mais ouve falar? Que um avião caiu, explodiu, o piloto passou mal. Apesar de tantos acidentes as estatísticas comprovam: O avião é o segundo meio de transporte mais seguro do mundo! Só perde para o elevador. Quantas pessoas lembram de ter visto nos jornais que o Brasil bateu recorde  de velocidade mundial com um avião pequeno desenvolvido na UFMG?

Com tanta informação ruim nos refugiamos em casa e perdemos um mundo inteiro passando lá fora. Mesmo que não tenhamos a oportunidade de viajar a gente perde muito quando deixamos de ir numa praça da cidade ou um parque, conversar com estranhos. Isso é também uma auto-crítica: Para voar da Guiana para a Guiana Francesa, evitei o Suriname que está no meio porque ouvi algumas coisas ruins. Minha insegurança era mais pelo avião e pela segurança do aeroporto como outros pilotos me alertaram. Mas será que esse alerta não tinha a ver apenas com o “distúrbio de Albina” que aconteceu por lá uns 3 anos atrás? Foi um evento isolado em que segundo a imprensa mais de 80 brasileiros foram atacados (brutalmente, como a mídia gosta de usar). A verdade é que eu perdi uma oportunidade de conhecer o único país a falar holandês na América do Sul. 


Como não tínhamos visto para a Guiana Francesa (fiz de tudo para conseguir), o dia seria muito longo e teríamos que estar preparados para chegar no Brasil naquele dia mesmo. Por isso decolamos um pouco depois do nascer do sol de Georgetown. Foram quase quatro horas e meia de voo, boa parte sobre  a selva amazônica surinamense, após uma noite muito mal dormida. Quando chegamos em Cayenne, capital da Guiana Francesa, descobrimos que a tripulação não precisava de visto. Como americanos também não precisam, nosso único problema era com o Rafael que com a ajuda de um funcionário do aeroporto que falava inglês nos acompanhou e foi nosso intérprete para a polícia de imigração (que só falava francês) e disse que o Rafael era o co-piloto. Com isso estávamos dentro de território francês e poderíamos descansar e dar uma volta por Cayenne antes de seguir viagem para o Brasil no dia seguinte. A tarde, todo o comércio estava fechado num dia de semana e a cidade parecia morta. A impressão que tivemos era que ninguém trabalhava naquele lugar. As 18 horas porém, o comércio reabriu e pudemos ver Cayenne com um pouquinho mais de movimento. Não vimos muito mas foi com nossos próprios olhos, fora de quatro paredes ou confinados num avião.

Aproximação para o aeroporto de Cayenne

Quase que o Rafael fica preso "do lado de fora" do país!

A costa de Cayenne não é uma das mais bonitas. Mas a foto foi para mostrar os flamingos vermelhos. Viu?

Voando de janela aberta para espantar o sono.
Mais fotos aqui.

domingo, 7 de julho de 2013

Guiana. Nossa primeira parada em um continente ou apenas outra ilha?



De Porto de Espanha seguimos a costa do Atlântico norte da Venezuela e da Guiana num extenso trecho de voo para aterrizar na capital daquele país: Georgetown. A comemoração de chegar na América do Sul e de estar finalmente em um continente contrastou com o isolamento daquele país. Durante o voo eu só via matas e florestas bem densas e elas acabam formando 80% do país. Guiana me deixou a impressão de ser uma ilha mais isolada do que as próprias ilhas caribenhas com algumas pinceladas a menos de cor. 

Os oficiais no aeroporto, o taxista, os funcionários do albergue nos trataram sempre com muita simpatia. O "Hotel" Tropicana, onde nos hospedamos era uma das opções mais simples que encontramos e ficava no segundo andar de uma boate cujo lema é algo como: “A noite toda”. A construção simples de madeira tremia tanto com a música alta que junto com o calor e a umidade infernal nos deixou claro que a “noite toda” era para ficar acordado, mesmo que fosse no meio de uma semana. 

Caminhamos pela cidade no fim da tarde e junto com dois mochileiros ingleses que também se hospedavam no Tropicana, comemos em uma churrascaria brasileira que de brasileira só tinha mesmo o nome. Georgetown (ainda bem que em português não traduzimos para: Cidade do George!) não tinha muito a oferecer. As ruas eram um pouco sujas e bagunçadas. Parecia (e era!) longe de tudo: do aeroporto (1 hora de táxi) e de outras cidades grandes (alguns pares de milhares de quilômetros). Como a pior coisa a se fazer é generalizar um país pela capital eu prefiro acreditar que eu perdi muito por não ter explorado as outras partes do país, sua floresta amazônica, rios e cachoeiras, como a Kaietur Fall em que nossos amigos ingleses visitariam no dia seguinte a bordo de um pequeno avião. 

As Guianas e o Suriname são países que sempre chamaram minha atenção. São os nossos vizinhos que lá do sudeste a gente nunca ouve falar nada deles. A Guyana “inglesa”, que hoje é completamente independente da Inglaterra, é o único país na América do sul em que se fala inglês e a usar (junto com o Suriname) o lado esquerdo para direção. Curioso para saber mais desse nosso vizinho acabei encontrando um fato curioso e triste da história guianense. Jonestown, uma comunidade no noroeste do país foi o plano de fundo de um dos maiores casos de suicídio/assassinato em massa. Liderado pelo ‘‘reverendo’’ Jim Jones de um segmento cristão americano, Templo do Povo (People’s temple), mais de 900 pessoas, (inclusos mais de 300 crianças e maioria estado-unidenses) foram mortas em um só dia no final de 1978. Esse é mais um exemplo na nossa história de como somos facilmente influenciados e manipulados por um bom orador que com um livro na mão julga ter a palavra e executar o desejo de “Deus”. Religiões fundamentalistas, dessas que crescem tanto no Brasil e mundo afora, liderados por gente que diariamente tenta inclusive infiltrar na nossa política(em um estado que dizemos ser laico), não fazem muito diferente ao aprisionar as almas de tantas pessoas, forçando-as a viver em nome de um falso amor e escravizando-as pela culpa. 


No dia da partida, saímos do hotel, as 5 da manhã de uma quinta-feira e a música e o barulho da boate ainda seguia em potência máxima. O próximo destino era Cayenne e como eles exigem visto para brasileiros não tínhamos certeza se poderíamos passar a noite na Guiana Francesa, caso contrário teríamos que, após abastecer, seguir viagem para o Brasil.

O ronco do motor do avião era como música de ninar depois de tentar dormir em quartos em cima de uma boate.
Mais fotos aqui.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Trinidade e Tobago - Burocracia e corrupção andam de mãos dadas

De olho bem aberto e atento nas nuvens em Trinidade e Tobago, parti de Grenada, pronto para o voo.  A estadia na ilha anterior foi prolongada porque o tempo não parecia bom. Desde quando eu parti da Flórida, a nuvens pareciam estar estagnadas em Trinidad com tempestades de chuva e raios. Apesar da minha constante preocupação para aquele trecho, o atraso foi de apenas um dia. Um bom piloto deve se orgulhar da decisão de não voar às vezes, o que pode ser uma decisão muito difícil principalmente quando existem vários tipos de pressão externa, mas principalmente de aspectos comerciais. Não era meu caso, ainda mais quando a hospedagem em Grenada pudesse facilmente me fazer a usar o mal tempo mais como uma desculpa do que uma honesta justificativa. Já que a previsão do tempo estava mais miserável pela tarde, saímos bem cedo de Grenada. Com uma ou outra nuvem para desviar, o voo foi bem tranquilo. Ao contornar as montanhas ao norte do país, que segundo eu li em algum lugar é a extensão das cordilheiras dos Andes, chegamos avistar a Venezuela. Entre as montanhas, uma extensa área urbana e industrial em contraste com as paradisíacas paradas dos últimos dias, junto com a tranquilidade do voo começou me dar uma sensação de “missão sendo cumprida”. Uma falsa sensação. 

Voar seria a tarefa mais fácil no “projeto” de chegar no Porto de Espanha, a capital do país. A burocracia para poder entrar naquele país foi tanta que quase superou a brasileira. Após seguir as instruções de taxi da torre de controle para o posto de abastecimento e cortar o motor, eu estava por conta própria. Fechei o avião, pegamos as mochilas e começamos a andar no pátio procurando a alfândega. Com os documentos de entrada já preenchidos, inclusos as 14 cópias das declarações gerais que eles exigem para entrada e saída (normalmente em outros países, 3 é suficiente), fui passando por vários agentes do governo. Como o de saúde, que não queria nos deixar entrar porque não tinha ninguém para desinfetar o avião com pesticida, uma lei do país. Por alguma outra razão tive que refazer as declarações gerais e começaram a arranjar vários outros empecilhos. Queriam que eu fizesse as burocracias com uma empresa privada que nada mais é naquele caso que uma empresa oficial de corrupção. Em todos os outros aeroportos muitas vezes eu tinha a opção de poder fazer os tramites com uma dessas empresas despachantes, “handlers”, mas porque eu não tinha muita pressa e queria economizar dinheiro eu tentava sempre fazer por conta própria. Entretanto em Trinidad, quando me passaram o telefone para o chefão da empresa, queriam me cobrar U$350 para o serviço. Quando eu disse que o preço era um absurdo diminuíram para U$150 e considerando as outras taxas caríssimas do aeroporto, decidi que se eu não entrasse por conta própria eu desistiria de entrar no país, e desliguei o telefone. Uns quatro funcionários da “empresa” pareciam se divertir com a situação. Principalmente quando me informaram que o agente responsável por checar as malas estava do outro lado do aeroporto. 

Quando abri a porta daquele terminal para voltar para o avião e taxiar para o outro lado, os seguranças que agora pareciam ter surgido do nada, disseram que era ilegal caminhar pelo pátio sem escolta e para que eu tivesse uma, teria que pagar a tal da empresa. Ou seja: Eu estava proibido de entrar no país, não tinha como ligar para ninguém e nem podia voltar no avião, até que o oficial chegasse as 17 horas ou eu pagasse os U$150. Eram umas 10 horas da manhã. Decidi esperar. Umas duas horas depois, o Don encontrou um porteiro que acabou resolvendo a situação com uma chamada de telefone. Em 15 minutos o agente veio e estávamos liberados para conhecer o país. Um pouco decepcionado por toda essa situação fiquei tentando entender o que pode fazer um país ser tão burocrático. A gente sabe que burocracia e corrupção andam de mãos dadas e ao ver tantos indianos (ou descendentes) trabalhando naquele país minha mente preconceituosa e generalizadora quis colocar a culpa naquela cultura. Trinta e cinco por cento da população de Trinidad é composta por descendentes de indianos. A Índia é um dos países mais burocráticos do mundo. Algumas décadas atrás fugindo exatamente do sistema opressor, vários indianos cruzaram os oceanos numa jornada de três meses em busca das ofertas de trabalho nas plantações de açúcar deixadas pelos escravos recém-libertos. O que vemos hoje é uma relativamente forte influência hindu no Caribe, onde eu menos esperava. 

Quando eu estou fora do Brasil eu sempre falo muito bem do meu país até que parece surgir uma contradição no meu discurso. “Se o seu país é tão bom por que você foi buscar oportunidades fora dele? Por que não é um país de primeiro mundo?” E então, tenho sempre que emendar: “Mas tem muita corrupção”. Assim como  a Índia e Trinidade e Tobago. Isso me coloca numa posição de igualdade com os indianos e os trinitário-tobagenses. E eu me pergunto, como vítimas de uma cultura corrupta ou como parte dela? Eu tenho muito orgulho de dar o exemplo do meu pai, Wilian Junqueira, uma das pessoas mais honestas que conheço. Certa vez, de férias, meu pai estava ensinando meu irmão mais velho a dirigir quando ele tinha menos de 18 anos, em uma estrada de terra. Um policial surgiu, parou o carro e pediu a carteira do meu irmão. Meu pai falou que ele não tinha e o policial disse: “Você sabe que isso é ilegal, né?” Sim, disse meu pai. O policial seguiu: “Que é uma infração gravíssima e que eu deveria multar e apreender o seu veículo”. O policial só faltou pedir os R$50 reais, quando o meu pai disse, com o bigode dele, todo sério: “Que cumpra-se a lei.”. Quantos de nós brasileiros agiriam assim? Quantos de nós usamos nosso especial “jeitinho brasileiro” para conseguir benefícios pessoais. Um exemplo? O meu próprio quando eu uso minha carteira de estudante vencida para conseguir desconto em cinema. Eu tenho vergonha de fazer isso mas é por essas coisas que parecem pequenas que continuamos onde estamos. Os políticos em seus gabinetes são muitas vezes reflexos de nós mesmos embriagados pelo poder concedido por nós, pelo povo. Mas eu divago...

Meio emburrado com toda aquela situação, não consegui aproveitar muito Porto de Espanha e acabei visitando um zoológico que me deixou ainda mais desconcertado ao ver os animais naqueles espaços tão apertados. Fora um parque bem verde no meio da cidade, algumas construções modernas e outras mansões antigas e conservadas não vi nada que chamasse muita a minha atenção.


Sair do país, foi ainda mais complicado que a entrada quando começaram a exigir documentos como declaração de carga e de passageiros como se eu fosse uma linha aérea, e eles (os funcionários do aeroporto) não tinham a menor ideia de como eu conseguiria aqueles documentos se não com os funcionários da “empresa” que insistiam que eu pagasse pelo serviço deles para me darem a cópia dos documentos. Comecei a andar enfurecido pelo aeroporto entrando de sala em sala explicando a situação quando consegui ajuda de um senhor muito simpático (com traços indianos, diga-se de passagem),  que acabou sendo a pessoa mais agradável que eu conheci em Trinidad. Ele trabalhava numa área sem nenhuma ligação com meus problemas e me ofereceu seu computador e impressora para que eu procurasse no google como fazer o documento. Era complexo e precisava de um par de códigos dependendo do tipo de carga, número de passageiros, aeroporto de destino e origem que eu não tinha a menor ideia nem paciência de como achar. Assumi que o funcionário do aeroporto que recolhia esse documento, também não saberia e coloquei letras quaisquer. Imprimi e funcionou. Decolei aliviado não vendo a hora de chegar na América do Sul.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Grenada


Visão do passageiro
Em mais um voo curto e tranquilo em que meu “piloto automático”,  Rafael Martins, não teve muito trabalho em manter o avião alinhado na rota, chegamos em Grenada em que segundo o guia: “Você vai querer andar de taxi por várias razões: As tarifas são fixas, aluguel de carro e gasolina são caros e dirigir na ilha pode ser ocasionalmente perigoso.” As vezes a melhor experiência de uma viagem está em fazer exatamente o contrário do que o guia te indica, mas mais provavelmente por birra mesmo, decidi alugar um carro em Grenada. Mas ao contrário da maioria dos países, você precisa ter a carteira de motorista local. Oops. Maaas... nada que U$15 não compre, pelo menos naquele país! De carteira comprada enfrentamos a estrada de mão esquerda, ziguezagueante, esburacada e grande parte de terra até a afastada pousada

Um dos poucos escombros que vimos
O cenário é paradisíaco, mas como chega a ser comum no caribe, em 2004, o furação Ivan mostrou toda a sua força destruindo ou estragando 90 por cento das casas em Grenada. Tudo indica que a reconstrução foi rápida, e fora um escombro aqui e ali (não muito diferente de algumas construções descuidadas no Brasil) não havia muito sinal da destruição, até porque foi há quase 10 anos atrás. 

Cabier Ocean Lodge, a pousada onde ficamos tinha um preço um pouco acima do nosso orçamento, (U$120/noite), mas valeu muito a pena. Os quartos tem decoração  rústica, camas com mosqueteiras (super útil!), grandes janelas e varandas com vista para o oceano e para a mata. A área comum com uma visão em 180 graus para o oceano dava uma sensação de isolamento do mundo. Mas, ufa!, tinha wifi e me mantive  conectado. Escaipiei com amigos, meus pais, feicibuquei, escrevi um pouco e fiquei observando as imagens de satélite e a previsão de tempo preocupante entre minha próxima parada e a Guiana, meu primeiro país na América do Sul. Os gerentes da pousada, Iris, uma austríaca casada com um chefe francês, Bruno e o filho francês deles, Kevin, eram tão simpáticos e atenciosos que a gente pensou em voltar lá apenas para reencontra-los. E não é que Kevin acabou não apenas nos visitando como morando com a gente nos EUA por um par de meses, no ano seguinte? Mais uma prova de que as amizades e as pessoas que encontro são as maiores riquezas que acumulo nas minhas viagens. 
Vista do quarto do Cabier Ocean Lodge
Cabier Ocean Lodge
Praia à alguns passos do Cabier Ocean Lodge
Don-key, um dos nossos novos amigos.
A esperta Judy acabou roubando os óculos do Don
O lado negativo em se hospedar em um lugar bacana como esse é que a gente acaba nem querendo sair para explorar outros lugares, mas a gente não podia deixar de conhecer “um dos portos mais pitorescos do Caribe” como anuncia o livro da National Geographic sobre o Caribe. Pegamos o carro e fomos para St. George, a capital do país. Apesar dos milhares de turistas que desembarcam dos cruzeiros, realmente não há palavra que melhor descreva St. George: Pitoresca. 
Para nossa sorte, tivemos que extender em mais um dia nossa estadia devido ao mal tempo em Trinidad e Tobago, nosso próximo destino.


St. George Harbour


Grand Anse Beach