segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Quando a gente sonha que está voando...

Semana passada "tive" um sonho um tanto estranho. Entrei na aeronave, completei o check-list, chequei os ventos, observei o tráfego aéreo, dou um grito: "Clear", giro a ignição, "trrrrrrrr-pppptotototo" o motor ganha vida, as hélices começam a girar. Pronto para o táxi, alguma coisa muito estranha acontece, a aeronave se suspende, com se tivesse vida própria, e ali permanece aproximadamente à um metro do chão. As pessoas no aeroporto param para olhar, alguns  buscam por alguma coisa no bolso, sem tirar os olhos da gente, porque aos poucos logo começamos a subir, com uma mão tampam os raios do forte sol daquele dia, ou mesmo tentam se proteger do mini furacão que surge da nave e que joga folhas, poeira, vento em todas direções. A outra mão acha o celular ou a câmera para registar aquele momento. Estou pingando, talvez de suor devido ao calor daquele verão, talvez de nervosismo, ou quem sabe são lágrimas de emoção? De repente a aeronave ganha velocidade e logo depois altitude. Aquelas pessoas ficam para trás e parecem pequenas agora, aliás tudo parece pequeno com exceção dos altos prédio e uma torre que parece que saiu do desenho animado os "jetsons" que aos poucos vão se aproximando. Minutos depois estamos pairando ao lado dessas torres, bem pertinho, como jamais imaginei chegar com os comandos de um avião. Tenho a impressão que posso dar um aperto de mão nas pessoas que me olham do topo daquela torre, que se chama "agulha espacial" ou "Space neddle" em inglês, que é um dos marcos de Seattle. Tudo parece mágico, parece um sonho, aliás é um sonho sim, mas não tem nenhuma mágica. Aconteceu na última quarta-feira, às dez horas da manhã, minha primeira aula em um helicóptero!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Uma pedra no meio do caminho

Essa semana fui no consulado do Canadá pedir meu quarto visto canadense. Entrei confiante, sai derrotado. Ter estado algumas vezes naquele país sendo a última para apresentar um trabalho da UFMG numa conferência, não foi suficiente para convencer o sistema de que eu não estava tentando entrar para ser mais um trabalhador ilegal por lá. Me disseram que o motivo seria que eu estava sem status nos EUA, já que aguardo uma resposta do governo americano para a extensão do meu visto de estudante que apliquei em Julho. Enquanto eles não derem essa resposta não posso ir para o Canadá, e o que há entre Seattle e Alasca?...
Resumindo, terei que aguardar mais um par de meses para começar oficialmente a viagem. Enquanto isso continuo com meus treinos e agora existe a chance de sair daqui já com a carteira de piloto comercial em mãos. A grande ironia é que estive voando ontem em céus canadenses. Não foi a intenção, mas como meu destino era Bellingham ao norte e estava em treino de voo por instrumento, fomos transferidos para os controladores de Victoria, na ilha de Vancouver, e fizemos holdings (procedimento de voo por instrumento) no espaço aéreo canadense. Mesmo sendo em inglês, a forma de comunicação foi suficientemente diferente pra deixar até meu instrutor confuso na hora de entrar no holding.
Minha amiga no assento de trás e meu instrutor disseram que o dia e a paisagem estavam lindos lá fora, mas sem poder olhar pelas janelas, com aquela espécie de vendas nos olhos só pude contemplar mesmo as fotos depois do pouso.

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domingo, 14 de agosto de 2011

Dia dos pais.

Hoje é dia dos pais, certo? Um dia feito para celebrar todos os papais do mundo. Será mesmo? Claro que não. Só no Brasil. E só no Brasil mesmo! Após uma rápida consulta no google, descobri que o dia dos pais nasceu, por coincidência, aqui onde estou, no Estado de Washington, na cidade que sobrevoei alguns dias atrás, Spokane. Aqui nos EUA por motivos comerciais escolheram o terceiro domingo de Junho para a data. No Brasil, por motivos não mais nobres escolheram em agosto. O Wikipédia ainda vai mais longe afirmando que: "No país a implementação da data é atribuída ao jornalista Roberto Marinho, para incentivar as vendas do comércio e, por conseguinte, o faturamento de seu jornal". Peraí, Roberto Marinho? Até aqui tem dedo das Organizações Globo? Não sei se é verdade, mas fica a dica para refletirmos sobre a origem de nossas crenças e culturas.  
Seria fácil dizer que meu pai não precisa de um dia especial, porque ele merece ser homenageado todos os dias do ano. Mas como eu falho nessa tarefa, ainda bem que, bem, inventaram o dia dos pais! Esse é um dos dias que tenho uma tarefa um pouco complicada, tenho que, de alguma forma, expressar o óbvio: que eu amo meu pai. E agora estando longe pela segunda vez nessa data, escrever (com palavras diferentes) é quase a única forma de fazê-lo. Claro que a internet hoje em dia ajuda muito a aproximar quem está longe, mas digamos que meu pai não é muito, cibernético. E claro, nada substitui um abraço de verdade (coisa que só fui valorizar estando longe, como sempre). Mas se hoje não posso abraça-lo, é tudo culpa dele! Ele é o responsável principal por eu não estar tão perto...
O maior presente que um filho pode receber de um pai é o ensinamento. E o meu caprichou bastante nesse presente. Ele me ensinou valores, que sem eles eu nunca poderia estar fazendo o que eu tenho feito. Nem poderia estar onde estou hoje, me preparando para essa grande viagem. Ta vendo? Culpa sua, Wilian Oliveira Junqueira!
Muito obrigado pai, pelo seu exemplo batalhador, de caráter, disciplina, humildade e pelo amor, que mesmo quando longe, mantém nossa família unida. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um encontro com o selvagem... nem tanto.

Nosso voo de volta para Seattle teve elementos meteorológicos que o fez um pouco menos simples que o voo de ida, como nuvens de tempestade e ventos de 30 nós durante um pouso. Mas nada que comprometesse nossa segurança. Ainda decidimos tentar uma rota um pouco mais diferente e desafiante, com mais montanhas e checkpoints famosos como a montanha onde foi esculpida as faces gigantes de quatro presidentes americanos (Mt. Rushmore) e um dos maiores e mais interessantes parques do mundo, Yellowstone. 
Depois  de umas 12 horas de voo, chegamos um pouco cansados no aeroporto Yellowstone Regional, na cidadezinha de cowboys, Cody, aproximadamente à 80 quilômetros da entrada leste do parque. A previsão era chegar no dia seguinte em Seattle, já que meu instrutor me esperava para prosseguir com meu curso. Mas como tínhamos que atravessar as altas montanhas de Yellowstone, porque não adiar o voo e "estudar" primeiro o terreno de carro? Com esse álibi, alugamos um carro e dirigimos no dia seguinte por quase 700 quilômetros para explorá-lo. Depois de visitá-lo no inverno um ano e meio atrás estava ansioso para ver tudo aquilo no verão, e quem sabe ter a chance de encontar o Zé Coméia que sempre puxa um longo ronco naquela gelada estação. Infelizmente não vimos nenhum urso, mas vimos outros animais interessantes como os bizões (ou bizontes?). Além desses, outro bicho que não vi muito no inverno mas que no verão tem aos montes é o bicho-homem. Eles estavam por toda parte e vêm de todo canto do mundo. 
Os parques de conservação dos EUA são uma das coisas que mais admiro nesse país. A organização e a infra-estrutura deles sempre impressiona, mas faz perder um pouco do encanto do selvagem. Mas como disse um cara que demos carona, e só sair um pouco das estradas principais, para ver uma natureza totalmente intocada. Como tínhamos apenas um dia para explorar o parque, não foi dessa vez que saímos do caminho-comum dos turistas para se encantar ainda mais com aquele lugar. Mas a idéia vai ficar guardada para planos futuros.  Ainda que sem sair muito dos limites das estradas que muitas vezes tinha o trânsito parado por bichos que a atravessavam, essa grande caldeira vulcânica sempre impressiona com seus geisers, crateras, e formações estranhíssimas. Eu falei das piscinas hidrotermais? Essa é minha atração favorita, que encanta não só os olhos, mas todo o corpo. Não pude resistir e mergulhei no encontro de um rio super gelado e da água que surgia fervendo de dentro da terra, a temperatura era perfeita e perdi noção do tempo, relaxando naquelas águas por umas duas horas. No dia seguinte veríamos toda aquela beleza por um ângulo diferente, espero que tenha conseguido captar um pouco do que admirávamos lá de cima! Link para o álbum.
Vimos essa piscina somente do avião, de onde cliquei essa foto. Do wikipedia: Esta fonte hidrotermal apresenta uma diversidade de cores brilhantes. Estas cores são devidas à existência de películas de bactérias termofílicas. A zona em azul contém água a ferver e é livre de bactérias; as zonas que vão do verde ao laranja são zonas onde crescem bactérias em temperaturas sucessivamente menores.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Oshkosh - Para os aficionados da aviação - e para os leigos também.

Chegar pilotando na meca da aviação é uma oportunidade que imagino, todo piloto desejaria ter pelo menos uma vez na vida. É o único lugar na terra onde mais de dez mil companheiros chegam pelos céus com suas máquinas aladas. Quando encostei o trem de pouso na pista 27 daquele aeroporto pensei que estava pousando em um ninho familiar, mas tenho que admitir  que por vezes, naqueles sete dias me senti um patinho feio. 
Eventos aeronáuticos como esse atraem sempre dois tipos de pessoas: Os aficionados pela aviação e os curiosos de plantão. Confesso que às vezes tenho a intenção de fazer parte desse primeiro grupo, mas ainda que eu seja um piloto, estou mais para esse grupo de pessoas que olha pra cima e fica de boca aberta como se voar fosse algo mágico. Já cheguei a comprar alguns livros que me ajudassem a identificar aviões e me permitissem fazer comentários aeronáuticos "intelectuais", mas o máximo que fiz foi folheá-los duas ou três vezes (no banheiro). Ainda assim, fui pra Oshkosh com uma missão pessoal: Saber um pouco mais dos aviões da Segunda Guerra Mundial. Ver todos aqueles aviões (uns 400!) fora das páginas de um livro ou revista, ao vivo e a cores era a chance única de saber um pouco mais sobre eles. Mas não passei  de um expectador obcecado quando dezenas deles se exibiam nos céus de Wisconsin ao mesmo tempo. Deu pra confundir as emoções olhando pra cima e ver que aquelas máquinas, uma arte da engenharia trouxe tanto sofrimento pra tanta gente. Talvez minha repulsa por guerra possa ser uma bela desculpa para eu não me sentir tão ignorante quando uma criança de 10 anos ao meu lado ia falando com toda a euforia do mundo os nomes e sobrenomes dos aviões que passavam a rasante a poucos metros da gente.
Uma rápida "googlada" me indica que vi de tudo: Harriers (que decolam da vertical), F-14 (do filme Top Gun que ainda não assisti), o maior dirigível do mundo, o helicóptero acrobático da redbull, F-15, F-16, B-17, B-29, T-6, P-51, 787, DC-3, A6M5,  e tantos outros letras-números. Fora as atrações "carne-osso" que apareceram por lá como Bob Hoover, Dick Rutan e Harrison Ford.
Mas para alegria dos mais leigos, não precisava saber tantos nomes pra curtir, vibrar, se arrepiar, ficar em êxtase com aquele show que explora bem as três dimensões. Uma das atrações que mais me surpreendeu foi, digamos, a mais "simples". Um planador com uma turbina, (sim, turbina!) dançava no céu com toda elegância, ao som de uma música bem relaxante, com a obrigatória fumaça saindo das pontas das asas. Nas atrações noturnas o mesmo planador surpreendeu com os fogos de artifício jorrando das asas no lugar da fumaça. E lá estava eu, um não-aficionado, babando e admirando aquela arte, com uma "pontinha"de inveja do artista. Mas quem era o artista? O engenheiro ou o piloto? Minha admiração por essas duas profissões me fariam divagar nessa resposta para bem além do escopo desse post. Mas o lugar onde eu queria estar mesmo, seria claro, ali no cockpit, nos comandos daquele avião. Sou apaixonado por voar. Sim, um aficionado, mas olhe bem, pelo verbo, não pelo substantivo, avião. Por isso decidi ser piloto. Para ter a oportunidade de olhar o mundo por um novo ângulo, me sentir como (licença o clichê:) um pássaro. Voar alimenta essa pretensão humana de ir além dos limites, e também a ilusão de que podemos ser superiores aos outros. Repito, ilusão. Lá de cima, mais cedo ou mais tarde, aprendemos que somos todos uma poeirinha à mercê da natureza e que todas nossas mais fortes convicções podem se desfazer quando mudamos perspectivas. Ainda assim, existe algo especial dentro de cada poeirinha que não podemos dimensionar com as ferramentas que temos nesse mundo físico, e que dentre outras capacidades incríveis, nos permite sonhar. Copiando o slogan de alguma companhia aeronáutica que vi em Oshkosh: Dare to dream (ouse a sonhar).