terça-feira, 20 de setembro de 2011

Tinha um vulcão no meio do caminho (e outro, e mais outro, e...) Voo solo de Reno a Seattle

Com a corrida aérea cancelada, passei o sábado pedalando pela cidade que se intitula: "A maior pequena cidade do mundo". Reno é outra cidade de Nevada famosa pelos cassinos, mas o que eu curti mesmo foi ver os moradores ao redor do limpíssimo rio que passa pela cidade. Margeado por gramas bem cortadas, jardins bem cuidados, a atividade por ali era intensa. Jovens se divertindo, famílias brincando com seus cachorros, velhinhos refletindo na vida e eu, me esforçando para esquecer a tragédia que presenciei no dia anterior. Foi um lindo dia de sol, assim como foi o dia seguinte nos estados de Nevada, Califórnia e a parte sul de Oregon por onde voei. 
Como eu estava de bicicleta e o aeroporto de Reno-Tahoe era gigante levei bem uma hora para ter acesso ao cessninha. Imagina a cena:  Um moleque descabelado (no caso, eu) com uma grande mochila surrada nas costas, pedalando uma bicicleta tentando convencer os seguranças que eu tinha um avião dentro daquele aeroporto. Um bom tempo depois estava decolando e logo sobrevoando o aeroporto onde aconteceu a corrida aérea. 
Por cinco horas voei por grandes aéreas completamente inabitadas, principalmente nas altas elevações das montanhas rochosas. Ainda assim me surpreendi vendo uma casa no topo de uma montanha literalmente no meio do nada, e logo depois grandes áreas com vários sinais de atividades vulcânicas. É incrível poder reconhecer lá de cima os lugares por onde escorre as lavas dos vulcões. Às vezes parecia uma enorme calda de borracha. 
Um cenário surpreendente é um magnifico lago na caldeira de um vulcão. O azul da água é tão intenso que um dia foi chamado "Azul Profundo" e também de "Majestade", mas hoje seu nome é simplesmente: Crater Lake, ou "Lago da Cratera". Segundo o que li, apesar de sua água ser trocada apenas por evaporação a cada 250 anos (não tem nenhuma saída ou entrada de água) é considerada uma das águas de lago mais puras do mundo. Se não estivesse tão alto, e fosse tão fundo (é o lago mais profundo dos EUA) e não parecesse tão frio dava até vontade de nadar por ali. 
Segui o voo com a visão de vários outros vulcões (foram uns seis no total) até pousar na cidade de Eugene, em Oregon, para abastecer o avião e checar a previsão do tempo, que não era nada boa. Torci para que fosse apenas um erro dos meteorologistas, e segui meu voo por mais uma hora e meia quando me vi pouco a pouco descendo de 6500 pés para 2500 para me ver livre das nuvens, até que elas começaram a me intimidar e eu decidi pousar em Portland, cidade que sou apaixonado. Para quem não sabe voar por regras de voo visual não permite voar perto/dentro de nuvens, além de ser bastante perigoso.

No dia seguinte segui para Seattle num dia lindo com nuvens "sabor algodão-doce". Na aproximação para o movimentadíssimo aeroporto da Boeing, fui sendo desviado de várias aeronaves. Autorizado para pouso na terceira posição (seguindo dois aviões), me posicionei 200 pés abaixo do circuito de tráfego padrão para garantir que estava livre do espaço aéreo "bravo" do outro aeroporto internacional de Seattle, Sea-Tac, e já na perna do vento, o controlador ainda me pede para fazer uma aproximação curta, já que vinha um Boeing 747-8 (o maior Boeing do mundo) para pouso atrás de mim, na posição 4! Já na (reta) final a torre ainda me avisa para ter cuidado com o helicóptero que se movimentava a minha frente. Garantir meu lugar nesse desafiante espaço aéreo já me fez suar litros nos meus primeiros voos solos naquele aeroporto, mas dessa vez pousei com um sorriso na cara apenas pensando: "De volta ao lar"...(Por mais um mês?)
Me apressei para dar espaço ao gigante (747-8) atrás de mim, pegar a câmera e registrar seu pouso. Mais fotos aqui.



sábado, 17 de setembro de 2011

Desastre na corrida aérea de Reno.

Tragédias, desastres, sempre acontecem. Sejam com aviões, carros, edifícios, calamidades da natureza, etc. Mas é realmente perturbador quando somos espectadores, quase vitimas. Durante a tarde de ontem, antes da "corrida de gigantes", como referiu meu ex-professor da UFMG, Paulo Iscold, `a categoria ilimitada da corrida, fui aprendendo com ele sobre as interessantes amostras raras da engenharia aeronáutica presentes naquele "pit", fora os ilustres pilotos, como o saudoso Bob Hoover. Um dos aviões que chamavam a atenção era um Mustang P-51 prateado, que segundo me explicava Iscold, tinha uma interessante modificação aeronáutica no dorso. Eu mal esperava que aquele exemplar raro da segunda guerra, batizado de "Galloping Ghost" ou fantasma galopante, em português, se preparava para o último galope. Uma hora depois eu via a perturbadora imagem daquele avião, em alta velocidade, "empinando", virando em nossa direção, passando em cima das nossas cabeças, para cair a uns cem metros de onde estávamos. Com o impacto da queda, vimos vários objetos se lançando ao ar, como pedaços de cadeiras e tudo que podíamos imaginar. Não vou descrever o drama que se passou dali pra frente, mas foi uma experiência que não desejo a ninguém. Nesse momento eu desejo as vitimas e aos familiares pelo menos o conforto na crença de que há uma razão para tudo, ainda que não somos capazes de entender e enxergar.
"The Galloping Ghost" decolando para o último galope. Cavalgue em paz!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Quando um plano B entra em ação. Voo solo de Seattle, WA a Reno, NV

Foram seis horas de voo que exigiram desse piloto tão inexperiente quatro vezes esse tempo para planejamento, cálculos, paciência e muita espera por melhores condições meteorológicas. A primeira parte não foi, digamos, muito cênica. A visibilidade estava bem reduzida devido a várias queimadas e como as nuvens não davam espaço em uma região montanhosa que eu estava prestes a voar, parti para um plano B em pleno voo, que me levaria a várias milhas mais distante do meu destino. Pelo menos seria mais seguro e teria uma excelente oportunidade de treinar a coordenação com minha equipe de voo, de todos os detalhes que envolviam aquela mudança de rota, como novo cálculo de navegação, combustível, possíveis aeroportos para pouso, etc. Mas como dessa vez toda a tripulação do N55473 se resumia somente a mim e a mim mesmo, estive um tanto ocupado nesse voo. Mas também nem tanto, depois de resolver tudo isso ainda tive tempo suficiente para tirar algumas fotos, fazer algumas ligações e pousar com combustível de sobra no aeroporto regional da pequena cidade de Roseburg, em Oregon.
No dia seguinte, acordei cedo para checar o tempo e como as nuvens estavam muito baixas, aproveitei para dormir mais umas horinhas, ainda assim, só me senti seguro para decolar a uma da tarde, depois de checar todas as fontes meteorológicas. Inclusive um piloto que acabava de pousar, que seguindo sua recomendação, voei através do buraco de nuvens para chegar a 9500 pês. Que subida espetacular! No horizonte, acima da camada de nuvens, picos de montanhas e vulcões surgiam como ilhas, no céu. Entre as nuvens lá embaixo eu seguia a estrada, sempre que possível, para me manter em navegação visual além de navegar por instrumentos. Me aproximando de Reno, estive voando (com bastante turbulência) por um grande deserto que me surpreendeu quando vi uma espécie de gigantesco cemitério de veículos. Eu tive a impressão de serem centenas de tanques de guerra, mas vou verificar as fotos depois para confirmar.
Já em contato com os controladores de aproximação do aeroporto internacional de Reno, eles me asseguraram que eu não entraria no espaço aéreo restrito da corrida aérea. E durante o pouso, mais uma vez um intenso vento cruzado me desafiaria, já que a pista que favorecia o vento estava fechada para o estacionamento dos aviões que chegavam para o evento. Mas o pouso foi um sucesso, ainda com a ausência do freio direito. (Fazendo o checklist para táxi em Rosemburg, perdi o freio direito, mas não me preocupei porque sabia que a pista em Reno era gigantesca). Milhares de "pés" de pista restavam na minha frente quando virei a direita para o táxi.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Um "favorzinho"

Seattle, WA
Hoje o presidente da minha escola me perguntou se eu podia levar um aviao para manutencao na capital aqui do estado de Washington. Depois de conseguir cancelar uma aula teorica e uma pratica de helicoptero e outra de aviao, porque nao? Ele me agradeceu, como se eu tivesse fazendo um grande favor. Como assim? Eu que agradeco, disse a ele! Agora estou aqui no aeroporto regional de Olympia esperando terminarem, para poder voar o aviao de volta pra Seattle e estive pensando... Hoje estou voando de graca, achando muito bom e custando para acreditar que um dia ainda serei pago pra fazer uma das coisas que mais gosto, voar. Sera mesmo??

Ps. Esse teclado que estou usando nao tem asento, muito menos corrige a ortografia para acento, como voce pode notar...
Olympia, WA