quarta-feira, 30 de novembro de 2011

De repente me vi na América Latina... sem sair dos EUA!

Sair de Austin sem assistir nenhuma apresentação musical me deixou uma sensação de vazio que recuperei quando cheguei em New Orleans, em Lousiana. Que cidade viva! Em plena segunda-feira pela noite a cidade fervia. Em quase todos restaurantes no "french quarter" se podia ouvir ao vivo o jazz que vinha dos saxofones, contra-baixos e pianos. Muitos deles não cobram cover, e os preços das comidas crioulas eram bem razoáveis. Acabei jantando feijão, arroz e frango, bem à moda latina, mas com uma dose de pimenta acima do que eu tolero. Mas como eu estava faminto acabei comendo metade da generosa porção com boas doses de água e um ponche de rum. Valeu muito à pena pela música que nos prendeu naquele restaurante por quase duas horas. Quando saímos pensamos que a cidade estaria morta (segunda-feira, quase 10 horas da noite), mas uma caminhada na Rue Bourbon me deixou surpreso. Não sei se era devido a um jogo de futebol americano que acontecia na cidade aquela hora, mas as ruas estavam ainda cheias de vida. Artistas cantavam, dançavam. Amigos bebiam e curtiam o movimento da noite das varandas das típicas casas de dois andares onde foliões energizam as ruas no famoso carnaval de New Orleans: Mardi Grass. Clubes de Strip-tease em cada esquina e todos os tipos de bares. A influência africana, francesa e espanhola e a cultura que encontramos com frequência nos países latinos estavam em todos os cantos: Na comida, nas construções cheias de cores, na cor negra da população, nas ruas antigas, desnivelas e cheio do verde das frondosas árvores. Durante todo o tempo eu via alguma coisa e me imaginava em cidades como Havana e Rio de Janeiro. A única  coisa que não combinava com aquela cidade naqueles dois dias, era o frio. Desde que partimos de Phoenix estivemos pegando uma carona nas "costas" de uma frente fria. Ela passa na frente faz sua tempestade e deixa sua bonança pra trás, com lindos céus azuis e talvez ventos favorecendo nosso rumo de voo, mas também as baixas temperaturas. 
No voo de Austin à New Orleans descobrimos que no nivel de voo de 11 mil e 500 pés, bem acima do que estamos acostumados e precisávamos, podíamos ganhar um bom empurrão dos ventos. A assim subi para aquele nível de voo onde fomos constantemente avisados da presença dos gigantes de linha aérea que se aproximavam e decolavam do aeroporto internacional de Houston. Por horas vi o cessninha voando a 170 nós (315km/h) quando numa situação sem vento ele cruzaria normalmente a 100 nós (185km/hr). Nesse voo turbinado chegamos na Louisiana bem mais rápido que o planejado mas ainda assim, quando chegamos já era noite. 
Mais um por de sol surpreendente no golfo do México me alimentaria com a serenidade que eu precisaria para pousar com segurança no aeroporto onde os ventos estavam rajando a 33 nós! Uma pequena amostra (bem pequena) do que o vento é capaz principalmente na cidade que alguns anos atrás foi devastada pelo furacão Katrina. Ainda que o vento estivesse alinhado com a pista, não foi um pouso fácil, porque o vento era inconstante e as rajadas faziam o cesninha parecer uma pluma. Mas minha mão direita estava firme no acelerador pronto para uma arremetida e acompanhando o vai e vem da força do vento. O toque com o chão foi um "pouco mais selvagem" do que eu estou acostumado, mas foi tudo dentro dos limites da nossa segurança (e conforto). No dia seguinte, quando pousei em Pensacola, na Flórida, com rajadas a 18 nós, confesso que pensei que seria fichinha. E foi! Mas eu tento lembrar que são nessas situações onde o excesso de confiança pode aparecer como um inimigo, e me forço a lembrar que sou apenas um piloto privado, de fraldas. 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Um grande deserto chamado: Texas


El Paso ficou pra trás e o deserto montanhoso também. Entrava em cena o deserto plano, sem graça. Quase 4 horas de voo nos levou até El Dorado, uma cidadela no meio do nada, onde pousamos para abastecer junto com o por do sol. De lá seguimos para Austin, onde já de noite pousamos no aeroporto internacional.
Se Texas tem uma estrela que brilha, essa parece ser Austin, a capital. Essa cidade cheira a arte, música, juventude. Junto com um viajante que conhecemos no albergue onde nos hospedamos fomos assisitr o filme do Sigur Ros, uma banda islandesa, que eu curto bastante. Por não ter tido tempo de conferir nada ao vivo, deixei Austin pra trás com a sensação de que faltava alguma coisa.
Abastecendo em El Dorado, no meio do nada.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

El Paso, uma cidade americana, mexicana.

El Paso e Ciudad Juarez, divididas por um muro

"Dona Ana Tráfego, November 55473, 5 milhas à oeste aproximando para pouso, pista 100, Dona Ana" Após essa frase padrão para pouso em um aeroporto sem torre de controle, tenho a surpresa de escutar meu nome no rádio: "É o Gustavo na final?". "Afirmativo" respondi rindo. Era o cara do couchsurfing que me hospedaria em El Paso. Carlos, que também é piloto, estava voando quando me escutou no rádio e pousou logo atrás de mim. 
Eu sempre digo que a maior riqueza que encontro nas viagens são as pessoas, mas se eu fosse escrever sobre cada uma que eu encontrasse isso seria um blog de homenagens, não um blog de viagem. Mas Carlos é o perfeito exemplo de como vale à pena usar o couchsurfing.org para se hospedar de graça. A idéia não é somente dormir sem pagar nada, mas conhecer de perto o povo e a cultura de algum lugar. E ninguém melhor do que um mexicano, como o meu anfitrião, para se hospedar em El Paso. A cidade está colada na mexicana Ciudad Juarez, estão separadas por um muro apenas. Se eu vacilasse um pouquinho eu podia ter acabado pousando num aeroporto do México. E parece que todos do lado americano também são mexicanos. Até a polícia de fronteira, por incrível que pareça, tem traços mexicanos. 
Carlos sempre amou aviação e é um exemplo de alguém que com muita garra e dificuldades tem realizado seu sonho de voar. Quando chegou nos EUA sem poder trabalhar legalmente, se ofereceu para esfregar banheiros no aeroporto local só para estar perto dos aviões, e seus serviços acabaram se tornando horas de voo, e hoje, ele já tem suas quase 500 horas de voo. Ele parece um personagem de sedenho animado. Divide um pequeno apartamento com sua irmã, e dorme literalmente, dentro de um closet. Mas parece nunca reclamar de nada, fala que nem maritaca e diverte qualquer pessoa com um sorrisão estampado na cara. Até quando se acidenta. Após um churrasco com seus amigos, já pela noite, Carlos cai do skate e esborracha a cara no chão, ensanguentado, Carlos continua rindo e fazendo piadas. Mas sua irmã o leva para casa com Adam e ela acabou me deixando numa festa de uns indianos, amigos de Carlos e no fim das contas acabei dormindo no sofá dos amigos tchecos de Carlos. Quanta diversidade cultural! 
No dia seguinte um voo pelo deserto nos levaria até Austin, no Texas. É impressionante sobrevoar El Paso e a Ciudad Juarez e ver claramente a divisa dos dois países. Essa cidade mexicana é considerada uma das mais perigosas do mundo, e lá de cima parecia uma gigantesca favela a se perder de vista no horizonte seco e árido.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A pedra nossa de cada dia nos dai hoje.

Formações rochosas vistas durante o voo de Prescot à Phoenix, no estado de Arizona
Ontem aqui nos EUA foi o dia do agradecimento, ou dia de Ação de Graças. É um feriado onde as famílias se reúnem para agradecer, originalmente para agradecer as colheitas da temporada verde que o inverno pouco a pouco vai desbotando. Mas como esse é um país livre cada um agradece o que quiser. Uns agradecem à Deus pela vida, outros à vida pelo Deus. Uns pelo peru assado na mesa e também pelo facebook nosso de cada dia. Se você não é agradecido pelo que tem (não somente no sentido de possuir fisicamente), aqui nos Estado Unidos se usa a expressão "take for granted" ou seja, você está "tomando por garantido" o que tem ou não esta dando o valor merecido. 
É lindo ver as pessoas agradecendo pela família reunida, pelo rango na mesa, pela saúde e pelas bênçãos. Eu também sou grato a tudo isso, mas depois de começar a viajar comecei a apreciar também os desafios e o acaso.  Quem viaja aprende que uma viagem quase nunca sai da forma planejada, sempre há um probleminha ou um detalhe que tira um passeio do rumo idealizado. E assim também parece ser com a vida. Muitas vezes a gente tenta escolher um caminho, mas os acasos acabam nos levando à outros rumos. Nos resta queixar e se frustrar por não viver a vida que gostaríamos. Será? 
É muito fácil dizer: "siga seus sonhos, seu coração", tão típicos de livros de autoajuda. Quem me conhece sabe que sou fã desse clichê, mas na verdade o uso com moderação, porque eu tento ter a consciência de que o que eu considero ideal hoje pode não ser o ideal de amanhã, ou o que de fato vai acontecer um dia. É importante ter em mente que tão fabuloso como viver um sonho é estar no caminho para sua realização, de braços abertos para o inesperado. Porque o caminho quase nunca é suave, há muitas pedras, como diria Drumond. Mas são as pedras, os desafios que nos fazem mais fortes, nos trazem sabedoria e apreciação, nos levam à lugares e pessoas que podem fazer uma grande diferença na nossa vida.
No voo de Prescot à Phoenix, Arizona, um instrumento chamado "heading indicador" ou indicador de rumo(?) entrou em pane. Será que eu tinha o direito de me aborrecer por isso? Valeria a pena?  Achei melhor ser grato à oportunidade de poder melhor minhas habilidades como piloto voando por bússola apenas. Também ao leque de opções que esse simples defeito me traria. Provavelmente terei que ficar em algum lugar por um ou dois dias a mais que o planejado. Que lugares vou visitar? Que pessoas irei conhecer? Será que farei novas amizades? 
Um dia uma pessoa bem sábia disse: "Não existe um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho". Seu nome é Mahatma Gandhi e parace que ele também já aprendeu apreciar as pedras do caminho.

Voando pela costa da Califórnia


Reportagem no Jornal Hoje em Dia

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Cruzando o deserto - De Los Angeles, CA à Prescot, AZ


Hoje começamos a cruzar o país em direção ao Atlântico e pousamos em Prescot, no Arizona, onde Adam fez faculdade na Embry Riddle. A pisagem tem sido menos empolgante, por ser completamente desértica, mas ainda assim fiquei admirando umas formações incríveis no relevo. O terreno foi aos poucos se elevando e consequentemente o nível de voo. 
Apesar de estar em um espaço aéreo restrito eu pude ver à distância a base da força áerea Edwards, no deserto de Mojave, e uma das maiores pistas de aeroporto do mundo, onde os ônibus espaciais americanos geralmente fazem (faziam) seus pousos. Fora essa atração única, o que mais me interessou foram os diálogos no rádio. Em um deles, um controlador do centro de controle de Los Angeles teve a cara de pau de perguntar os pilotos de um voo da Northwest, se eles poderiam levar um pacotinho de biscoitos pretzel extra para um dos passageiros que era amigo ou família do controlador. O piloto respondeu: "Acredito que sim, você pode me dar Los Angeles direto?" Significando que ele queria a rota mais rápida ao destino. O controlador respondeu que tentaria... Fiquei com vontade de apertar o botão do rádio e perguntar também: Se sobrar biscoitos pretzel, manda um pra mim!!!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Movie Star

Ainda estou em Los Angeles esperando terminarem de consertar o meu transponder, e acabei de assistir partes do seriado onde nosso cessninha aparece no plano de fundo. Reparem no avião à esquerda com a matrícula N55473 no tempo, 10:53, desse episódio de Castle: http://www.youtube.com/watch?v=xkTIrknN7xM Valeu Felipe Tomé por achar esse vídeo!

De Monterrey, CA, à Los Angeles, CA


Céu azul, sol, praia. Depois de semanas de chuva em Seattle, foi isso o que eu curti no meu primeiro dia na Califórnia. Foi um dia muito tranquilo, começando com uma caminhada na praia com Lynn, Max- seu cachorro e Adam. Voamos pela tarde ao longo do Big Sur, com direito a visão de cachoeiras, castelo (Hearst Castle) uma das estradas mais bonitas do mundo, a Route 1, que passa por precipícios ao longo da costa do Pacífico, casas cinematográficos e outro maravilhoso por do sol. Dessa vez encontramos um tráfego inusitado: Um gigantesco dirigível, Zeppelin, voava ao longo da costa da Califórnia (o mesmo que eu vi quando estive em Oshkosh), que é o único do tipo a operar comercialmente nas américas!
Como meu transponder não tem funcionado muito "adequadamente" decidi pousar em Los Angeles onde conheço um mecânico que vai dar checada no instrumento. Adivinha o que eu presenciei quando cheguei no hangar desse mecânico? Dica: Los Angeles/Hollywood... A gravação de um filme! Claro, isso é comum por aqui, tanto que em março quando o cessninha estava em manutenção no mesmo hangar, me pagaram $50 para que ele pudesse participar das gravações no seriado "Castle".

domingo, 20 de novembro de 2011

De Seattle, à Monterrey, CA


Nessa parte da América o tempo parecia não dar trégua. Depois de chegar em Seattle do Canadá, parecia que eu nunca conseguiria voar daquela região. Hoje, de manhã cedo, com os olhos ainda entreabertos, olhei da janela para o lago onde estive vivendo e vi aquela camada de neblina dando um toque de surrealidade na superfície do algo. Do outro lado eu podia ver os pinheiros e as árvores com suas folhas de outono, como que flutuando, brilhando pelo sol. Então eu disse pra mim mesmo: É hoje! A previsão do tempo não falhou e a mãe natureza mandou essa janela de bom tempo nesse domingo para podermos sair de Seattle. Não sem antes de descongelar a asa do avião que estava coberto de gelo que acumulara durante a noite! Foram quase quatro horas e meia de voo, atravessando todo o estado de Oregon com suas gigantescas árvores (as maiores do mundo!) até o primeiro aeroporto onde paramos para abastecer, em Crescent City, Califórnia. Como o mau tempo está caminhando para aquela região decidimos, seguir até Monterrey, CA. Em termos de navegação, foi o voo mais fácil pra mim até hoje, porque fomos seguindo a costa do Oceano Pacífico. Eu queria descrever um pouco o cenário, mas acho que vou deixar você, que de fato ta seguindo o blog, cansado. Mas eu vou soltar as palavras e deixo você imaginar: Praias, montanhas nevadas, gigantescas florestas, penhascos beirando o oceano, vulcões. Tudo isso junto, com uma pitada de por do sol (que se põe no oceano, por ser O. Pacífico, claro)...
...
Não estou aguentando, acho que eu tenho que dizer que foi o por do sol mais bonito que vi em minha vida! Talvez a emoção do momento "força um pouco a barra", mas as cores vermelho e alaranjado eram tão intensas e tão vastas sobre o oceano que eu comentei com o Adam: parece que o mar ta pegando fogo! E lá ele se foi... no seu caminho para dar bom dia ao povo de olhos puxados. Em pouco tempo, tudo era breu, com exceção de algumas pequenas cidades, e das estrelas. Voar a noite me da uma sensação estranha. Um misto de emoções. Parece tudo tão calmo, tão tranquilo, mas ao mesmo tempo com um potencial de ser assustador. As vezes a voz dos controladores surge nos fones como que vindo do além, e a mente começa viajar. Mas de repente as vozes se tornam cada vez mais frequentes e luzes, muitas delas, começam a se aproximar no horizonte.  Logo estamos voando ao lado de San Francisco. Tivemos que nos afastar bastante em direção ao oceano e descer para 2500 pés (de 5500) para garantirmos distância dos gigantes aviões que movimentam o aeroporto internacional daquela fabulosa e brilhante cidade. Seguimos nosso voo sobre o oceano até chegar em Monterrey onde pousamos e fomos recebidos por Lynn Johnson, irmã do meu amigo Don, que preparou um delicioso arroz com feijão e frango com seu especial tempero latino. Comer me fez sentir muito bem e já não vejo a hora de capotar nessa cama. Boa noite pra mim, bom dia pra quem desperta cedo aí no Brasil!

Pulando de Bungee Jump em Whistler, Canada

Já que a chuva não deixava voar de avião, por que não tentar voar com meus próprios braços, né? Acho que não deu muito certo....

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Uma cidade chamada Victoria (Columbia britânica) 11/11/11

Imagina uma cidade chamada Victoria. Imaginou? Pois Victoria é uma cidade assim mesmo, bem victoriana. As agências de turismo oferecem essa cidade ao turista que quer se sentir na Europa sem sair das Américas. E essa é a impressão que fica! Imagina ainda ter a sorte de estar na cidade para ver a marcha de celebração do feriado de "Remembrance Day", mesmo com frio e chuva os soldadinhos fizeram bonito no dia 11 do 11 do 11:


Essa é minha quarta visita ao Canadá e acho que já colecionei situações suficientes para poder generalizar e declarar: Que povo simpático e amável São gestos simples como de um senhor que me viu perguntando no Tim Hortons (famoso café canadense) se eles tinham internet wi-fi e depois da resposta negativa me seguiu até o carro para me mostrar onde tinha um e me ensinar o caminho. Em todas as lojas, restaurantes, sempre te tratam com muita cordialidade e atenção, como se dispusessem de todo o tempo só para você. E parece não importar o lugar. Até o 'detran' canadense impressiona... 

Eu parei o carro em frente ao albergue onde me hospedei para perguntar se tinham vaga e quando voltei no carro para pagar a taxa de estacionamento (nas máquinas que ficam nas ruas) vi uma surpresa no meu para-brisa: uma multa! Lá fui eu no departamento de trânsito de Victoria tentar me explicar. Me expliquei em poucas palavras para a primeira pessoa que vi no edifício (sem filas, sem agendamento) sem muitas esperanças e responderam mais ou menos assim: "Sinto muito pelo que aconteceu, vou cancelar sua multa e espero que tenha um excelente dia!" Simples assim! Como seria no Detran aí no Brasil ?

Voo de Seattle, EUA à Victória, Canadá

1 hora de voo, 10 horas de preparação. Isso que me custou chegar em Victória, na ilha de Vancouver. Confesso que a preparação me deixou um pouco nervoso. Era meu primeiro voo internacional, e eu era o único tripulante naquele voo. Quanto eu li os regulamentos sobre voo internacional entre Estados Unidos e Canadá, o preço das multas por não ter os documentos corretos a bordo ou por descuido em alguma parte do plano de voo me assustou. São vários destalhes que tive que conferir e re-conferir para poder decolar do Boeing Field com certa segurança. 
Beirando meu limite de horário para poder voar ainda com a luz do dia, decolei às 3 e 30 da tarde (o sol esta se pondo às 16:30). O sol - coisa rara por aqui, nessa época do ano - estava no horizonte iluminando as árvores decoradas de vermelho, amarelo e alaranjado para o outono, que se contrastam com os sempre verdes pinheiros que são marca registrada do "Pacífico Noroeste". No plano de fundo as altas montanhas nevadas também se contrastando com as águas azul escuro do pacífico e as lindas ilhas de San Juan. Voar permite essa dimensão única de apreciação da natureza, mas as vezes sinto que 200 km/h é rápido demais para poder "saborear" o que se ve lá de cima. As vezes giro 360 graus, para confirmar o que estou vendo, mas a vontade mesmo é de parar o tempo, chamar meus amigos, minha família, e quando todos estivessem presentes, "religaria o tempo" para podermos assistir juntos esse espetáculo com a terra se colocando lentamente entre nossa arquibancada e o sol. Minha natureza humana me faz querer possuir esse tipo de beleza e isso se revela na fotografia. Mas claro, ela não é suficiente. 
Atravessei a linha da fronteira sem nenhuma surpresa. Talvez a única diferença tenha sido no sotaque dos controladores que eu mal podia perceber. Com um lindo pouso (desculpa pela falta de modéstia), pousei numa das três pistas que se cruzam do aeroporto internacional de Victoria. Como já disse, fiz o processo de alfândega por telefone e sem nenhum contratempo ou burocracia estava em chãos canadenses. Eu sei que desafios maiores me esperam nos países latinos, mas quando as coisas não fluírem suavemente vou tentar resgatar na memória a beleza de certas paisagens e buscar: "...a  serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as coisas que posso e a sabedoria para saber a diferença"

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Sobre os passageiros e tripulantes

 
 Quinta-feira parti para o Canada, decolei de Seattle e pouco tempo depois recebia permissão para pousar em Victoria, na ilha de Vancouver. Já em solo, com instruções de manter "todos os passageiros" a bordo até que o processo de imigração concluísse, meu (único) passageiro permaneceu no avião, enquanto eu por telefone, respondia as perguntas do oficial da alfândega, para então receber o "privilégio" e autorização de visitar esse país, repito, por telefone! Que contraste com a primeira vez que estive no Canadá quando eu e meu amigo Luigi fomos completamente revistados! Em compensação dessa vez, não tinha ninguém pra deixar o suvenir, digo, carimbo no meu passaporte...
Nesse primeiro trecho da viagem (que estava planejado para durar dois dias, mas devido ao mau tempo tem se prolongado para seis) tive a honra de levar um passageiro mais que especial. Seu nome é Don Johnson e hoje ele é mais que um amigo. Pela sua idade eu poderia dizer que ele é como um segundo pai, mas às vezes ele parece ter o espirito de uma criança, e sou eu que tenho que chamar sua atenção: "Don Johnson! Don't do that!", sempre na brinacadeira, claro. Ao mesmo tempo é um conselheiro e o principal incentivador dessa jornada. Ele é um verdadeiro viajante, não tem frescuras para se hospedar em hostels (albergues) e já desbravou boa parte da América Latina de ônibus, após aprender espanhol depois de seus 50 anos de idade. Hoje, aos 65, com o grande desafio de cuidar de sua esposa, Barb, que sofre de Alzheimer, está aprendendo português e se reinventando, deixando claro a lição de que nunca é tarde para nada. Amanhã quando chegar em Seattle, se o tempo permitir, vou trocar de passageiros. Deixo o Don e entra o Adam, que vai seguir a viagem comigo até o Brasil. Adam é uma das várias pessoas que me perguntou: "Posso ir com você?". Eu adoraria poder levar a maioria dessas pessoas, mas o Adam foi o único que passou no teste de nadar em um lago com temperatura próxima à zero! Brincadeira, não teve nenhum teste, mas ele ele nadou sim nesse lago após horas de caminhada numa trilha, se mostrando uma excelente companhia para essa aventura. Mas ele vai além de um grande amigo e companhia, não vai ser um mero passageiro, será tripulante, meu co-piloto nessa jornada! 

Adam Roberts, nadando em uma água quase congelada!

domingo, 13 de novembro de 2011

Do Alasca???



Eu não preciso enumerar um punhado de alabais explicando porque eu não estou fazendo jus ao título (ex-título desse blog), mas quero pelo menos deixar claro, que a segurança é a prioridade dessa viagem. E quando eu idealizei sair do Alasca, eu imaginei que a viagem aconteceria durante o verão do hemisfério norte. Mas quem tem me acompanhado sabe que por outros motivos (burocráticos, vistos, etc...) eu não consegui partir em Julho. Ainda assim, nas últimas três semanas estive estudando e observando atentamente as condições climáticas no Alasca, ainda com a esperança de que uma janela de bom tempo me permitisse um voo seguro até lá. Mas isso não aconteceu e o inverno está batendo aqui na porta do Pacífico Noroeste. E como o aviãozinho que estou voando tem seus limites e o seu piloto em comando mais ainda, tomei a decisão de não voar até lá e com isso o blog ganha um novo título: Do Canadá ao Brasil. Espero que seja até o Brasil... mesmo!


E cá pra nós, bem que dava pra enganar que estive no Alasca com essas fotos tiradas na região de Seattle nas últimas semanas, hein?