terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Amigo à primeira vista

Por quanto tempo estivemos juntos? Semanas, dias, horas? E se foram apenas minutos, será que ainda posso te chamar de amigo? Quanto tempo precisamos estar juntos para eu poder ser seu amigo? Será que você esta sempre presente na minha vida? Compartihando risos, conquistas, tropeços e choros? Será que você no mínimo se lembra do meu aniversário, ou de vez em quando me da um presente, ou mesmo um cartãozinho? O tempo esta passando e parece que não há necessidade de dizer adeus para sabermos que inevitavelmente a vida se reorganiza e uma hora ou outra percebemos que o que resta da gente é a saudade. Será que me iludi com a promessa da sua amizade eterna? Por que você fez isso comigo? Sabe porque? Simplesmente porque a gente na verdade nunca precisou de tempo para construir nossa amizade. A gente já estava conectado antes mesmo do ser humano tentar definir tempo com um começo, meio e fim. Você existe agora aqui dentro do meu, uhmm, ser (coração para os mais românticos, espírito para os religiosos). Mesmo que na forma da memória de apenas um riso, uma frase ou gesto de afeto. Talvez você pense que priorizei seguir viajando do que ficar ao “seu lado”. Ninguém disse que colocar os pés na estrada, a mochila nas costas e sair do ninho de conforto seria fácil. São muitos desafios, muitas lições aprendidas nem sempre da forma mais suave, mas é assim que vou me conectando à pessoas tão especiais nesse mundo como você, meu amigo. Afinal, como disse Vinícius de Moraes: "Não fazemos amigos, reconhecemo-os."



How long have we been together? Weeks, days, hours? What if it was just for couple of minutes, could I still call you friend? How long do we need to be side by side so I can be your friend? Are you always present in my life? Sharing laughs, achievements, stumbling and crying? Do you at least remember my birthday, occasionally give me a gift, or even a small card? The time is passing by and it seems there is no need to say "adios" to know that life inevitably rearranges, and sooner or later we realize that what remains is "saudade". (A word in Portuguese that expresses a feeling like nostalgia but more in a positive way - without the load of moaning) . Was I deceived with the promise of your eternal friendship? Why did you do this to me? Do you know why? Simply because we don't need "time" to build our friendship. We were already connected before the humans tried to define time with a start, middle and end. You now exist inside my, uhmm, being (for the romantic people: heart. Spirit, to the religious). You are here at least as a memory of a laugh, a phrase or gesture of affection. You might think that I prioritized traveling rather than being to "your side". Nobody told me that getting my feet on the road, with my backpack and out of the nest of comfort would be easy. There are many challenges, many lessons learned not always in the smooth way, but that's how I'm connecting with people so special in this world like you, my friend. After all, as Vinicius de Moraes, a brazilian poet, said: “We do not make friends, we recognize them.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Exame de IFR (voo por instrumento)

Na última sexta-feira recebi oficialmente a permissão pra seguir meu treino de voo por instrumento pelas autoridades americanas. Antes disso estava apenas "voando por diversão" com meu novo instrutor, se é que você me entende... Receber uma autorização para treinamento de voo, principalmente um treinamento mais complexo, não é algo muito garantido principalmente depois dos atentados das torres gêmeas. Com meu exame prático marcado com um examinador da FAA essa semana comecei a observar com muita atenção o clima. Por uma semana aqui no sul da Flórida as nuvens têm predominado, e o que era para ser treino simulando voo dentro das nuvens, tem sido na verdade dentro delas, mesmo!  Às vezes eu ainda tenho a sensação de que o avião está se movendo de forma diferente do que devia, mas logo eu me forço a confiar no que os instrumentos estão me dizendo e o voo segue de forma segura. Tem sido divertido e surpreende poder entrar e sair de nuvens de diferentes cores, formas e densidades, desde que eu não entre no meio de uma nuvem de tempestade.  Atento nessa possibilidade no meu voo de check, comecei a acompanhar o movimento de duas frentes, uma fria e uma quente se movendo uma em direção à outra na noite anterior ao meu exame. Aquilo era o meu jogo da noite e eu acompanhava como quem gosta de futebol acompanha seu time favorito. De olho nas imagens de satélite e nas cartas de pressão e de direção dos ventos era importante para eu saber quem venceria aquela batalha. O resultado me daria dicas de qual seria o curso predominante do vento no dia seguinte e assim eu poderia me preparar melhor para as três aproximações que eu teria que executar de olhos semi-vendados na presença do examinador. E assim como aconteceu no único jogo de futebol que assisti em um estádio, o resultado não foi muito excitante: Empate, 0x0. As duas frentes se tornaram uma única frente estacionária trazendo uma miserável condição meteorológica na área onde eu seria testado em voo por mais de duas horas, e com ela visibilidade ruim e ventos inconstantes. O pessoal do clima acabou colocando um alerta na área que se chama "convective sigmet" previsto para entre 10:55 e 14:55 horas, sendo que meu exame estava marcado para as 13:00! "Convective sigmet" implica em condições de tempestade com possibilidade  de ventos com mais de 50 nós de velocidade, granizos com diâmetro maior que 3/4 de polegada e até mesmo tornado! (Eu sei esses detalhes agora porque essa é uma das centenas de perguntas que o examinador poderia me perguntar no exame oral). Claro que eu poderia decidir não voar, principalmente porque FAA olha esse exame como se eu fosse o piloto em comando, ainda que fosse um exame, mas a pressão era grande porque não tem sido muito fácil achar vagas no calendário dos examinadores. Então 12:58 chega e eu recebo uma mensagem do examinador dizendo que ele se atrasaria por 5 minutos. Ele chega às 13:05 e a gente começa verificando papelada, documentos do avião, meus documentos, exame médico, passaporte (torcendo que ele não visse que estava com meu visto de turista). Na hora de colocar tudo no sistema, alguma cosa não deixou que ele submetesse minha aplicação, e conversando no telefone com o pessoal responsável a gente descobre que meu nome aparece em diferentes formatos nos meus documentos e no meu exame teórico. Gustavo Henrique  como primeiro nome e Cavalcanti Junqueira como últimos nomes  em um documento, Henrique Cavalcanti como nomes do meio em outro documento e outras variações. O jeito era fazer a aplicação manual e mandar por correio, e por causa disso meu exame acabou sendo adiado para próxima semana. Será que eu culpo meus pais por me colocarem tantos nomes? Ou seria melhor pensar que tudo acontece por uma razão? ;)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Tempestade (cerebral)

Ao longo da praia as palmeiras e os coqueiros se viram em apenas uma direção e dançam um balé em um sincronizado vai e vem. O vento, essa coisa geralmente invisível, vai aos poucos mostrando sua força. Sua sublime força. Todo mar responde a ele, e as ondas com as cristas brancas quebram na praia e fazem sua melodia. Já é madrugada, mas as luzes da iluminada costa da Flórida se refletem nas nuvens que chegam baixinho e se estendem sobre o mar. Num dramático degradê, elas se escurecem ao tom negro e parecem tocar o mar no horizonte. O aproximar de uma frente fria e sua tempestade pode ser um dos eventos mais sublimes que alguém pode experimentar. São duas horas da manhã e eu estou na praia para ver esse espetáculo. O cover é gratuito, por que não? Sozinho aqui, na plataforma dos salva-vidas, me faz sentir o poder da natureza e a minha impotência, como ser humano. Me despe da minha natureza humana arrogante, me faz sentir mais simples, parte da  natureza, parte de um todo, que é difícil de compreender. Mas eu posso sentir - esse "todo" do qual faço parte. Escutar e observar as ondas passa não ser entediante. Começo me sentir mais leve e parece até que estou voando. Não, não me drogo. Pode etiquetar essa experiência de meditação se quiser. Te faz sentir protagonista de um filme, mas onde todos têm o mesmo papel. Você sente que cada um de nós seres humanos, tão insignificante, tão impotente, por fazer parte desse "todo" tem o potencial de fazer a diferença, escrever a própria história, tomar diferentes caminhos, fazer escolhas. Que certamente não vão levá-lo ao destino traçado por si, mas sim o traçado pelo Todo. Sim podemos ser pequenos demais para compreender, mas a gente tem a capacidade de sentir.  E o Todo, a natureza, sim pode chamar de Deus também, hora ou outra vai sussurrar nos seus ouvidos: Tudo tem uma razão para ser e acontecer . Então você sente que o medo, esse sentimento que nos faz tão pequenos, é simplesmente fruto de uma falta de sintonia entre nós mesmos e o Todo.
Nós. Tão impotentes - com tanto poder. Que ironia, esse misto de sensações. Sublime ironia.