sexta-feira, 30 de novembro de 2012

São Vicente e Granadinas - Onde os "Piratas do Caribe" atracaram.

Trinta minutos. Esse foi o tempo aproximado para voar de Santa Lúcia para São Vicente e Granadinas. Quando eu mal terminava de subir já estava na hora de descer e fazer a aproximação em E.T. Joshua, o principal aeroporto desse país. Mesmo com o vento de calda, fui instruído a pousar na pista 7, em direção à ilha, já que na direção oposta um morro poderia obstruir minha aproximação. Pousei com uma velocidade bem maior do que o costume devido ao vento, mas não me preocupei por ter bastante pista disponível. Foi fácil e rápido. 

Mas não foi o mesmo para os escravos foragidos e naufragados que chegaram de Santa Lucia e outras ilhas, alguns séculos atrás.


 Essa pintura exposta no museu do Forte Charlotte retrata a chegada “milagrosa” dos escravos após o naufrágio de um navio em 1675. Segundo o museu e outras fontes na internet, esses escravos africanos  foram bem vindos na ilha pelos índios caribes, mas os mesmos “impediram agressivamente a colonização de São Vicente” pelas expedições britânicas e francesas até o século XVIII. Desde então, essa até então colônia, passou pelas mãos dos franceses e dos britânicos até conseguir a independência em 1979. O fato que chama atenção é que o chefe de estado da ilha ainda é a própria rainha Elizabeth II, como aparentemente ainda acontece em outros países.


Dessa vez achamos nosso teto pelo airbnb. Para quem não conhece esse é um site onde pessoas do mundo todo, como eu, alugam seus espaços, quartos ou casas para viajantes a um preço geralmente melhor do que hotel e com mais a oferecer. Por exemplo, por um pouco mais de U$50 por noite encontramos uma casa completa com dois quartos e uma linda vista para as montanhas cobertas por matas tropicais. O taxista, arranjado pela própria dona da casa, nos levou do aeroporto até a casa num caminho de aproximadamente 10 minutos que me fez sentir numa montanha russa. Dificilmente se estivéssemos hospedados num dos hotéis que o guia do Caribe (para pilotos) aconselha, teríamos tido as experiências que tivemos. 
Vista da casa que alugamos

Muita gente que viaja com frequência tende a ser um pouco crítico com relação aos turistas. Eu sou um deles. As vezes eu tento evitar um lugar por ser “turístico” demais ou fico observando com uma certa uhm, “arrogância”, centenas de pessoas desembarcando de um cruzeiro para “conhecer” um país por algumas horas. Eles conhecem o país pela fachada, compram os souvenirs que retratam as cenas exóticas que talvez nem eles mesmo conheceram. Deixam para conhecer as cenas de locação de “tal” filme ao invés de conhecer um importante marco histórico daquele lugar. Como eu! Decidi então conhecer a cena de locação do filme Piratas do Caribe que segundo o guia: “Esse lugar só pode ser alcançado por barco”. Mas basta uma caminhada pelo centro de Kingstown, a capital do país, e trocar algumas palavras com o povo local para saber: “É claro que você pode chegar lá de ônibus”.

Eu fiquei na dúvida se o autor do meu guia realmente não sabia dessa façanha (nem teve muito trabalho em saber), ou se ele simplesmente achou melhor não citar que sim, em menos de uma hora numa estrada em uma van-lotação poderia chegar “sobrevivido” ao local da filmagem. O trajeto fez com que eu, o Don e Rafael trocássemos olhares desconfiados pela forma como a van era conduzida naquelas estradas, mas a experiência se somou a nossa lista de aventuras e apesar dos frios na barriga eu me senti seguro (nem tanto como voar, mas...) Chegamos no local e uma placa surrada nos dava boas vindas a Wallialabou Bay.


Descemos para a praia onde supostamente gravaram o blockbuster, mas fora as águas caribenhas e a linda e reclusa praia de areia preta, não havia muito que indicasse que ali foram gravadas as cenas do famoso filme da Disney. O restaurante que serviu de cenário para a vila do filme e onde na internet ainda diz: “Nós decidimos manter o cenário de filmagem e preservá-lo, estamos constantemente trabalhando no processo de restauração”, estava tão quieto que parecia não ter sobrevivido as arruaças dos piratas. Mais tarde acabamos descobrindo que a verdadeira maldição tinha sido um furacão que alguns anos atrás acabou arrasando o lugar. Nas paredes do restaurante várias fotos velhas mostravam as cenas de filmagens e os atores de Hollywood (como Johnny Deep e Orlando Bloom) interagindo com o povo local mostrando sua simpatia e “humildade”. Mas assim como o autor do meu guia as estrelas “pareciam não saber” que havia estrada que chegasse aquela baía já que, segundo nossa garçonete eles chegavam de lancha direto do hotel onde se hospedavam. 


Enquanto saboreávamos um peixe e a tranquilidade absoluta daquele lugar, chegaram duas senhoras de pele clara, de saia e um homem de pele escura. Meu primeiro pensamento: “Duas freiras e o motorista”.  Aí eu me pergunto: Quantas faces tem o preconceito? Como pode eu, uma pessoa que achou um absurdo quando soube que minha amiga Fiona, aeromoça da British Airlines que conheci em Cuba, por ser negra, era constantemente interrogada nas ruas de Havana quando vista com uma tripulação gringa por ser confundida por prostituta? Que diferença existe entre meu pensamento e  o trabalho dos oficiais cubanos? A verdade era que uma das mulheres (canadenses) Darlene, era casada com o caribenho, Gary e a outra mulher era sua irmã de visita do Canadá. Eles acabaram sendo a “cereja do bolo” (que brega!) da nossa visita. Graças ao Don que tem como ninguém uma das maiores qualidades de um viajante: Saber falar “oi” aos estranhos. Eles acabaram nos oferecendo uma carona de volta à capital e nos mostrando paisagens, lugares e um por do sol que dificilmente veríamos de outra forma. Darlene, com toda simpatia, fez espaço entre as ferramentas de jardinagem com que trabalham na van e Gary, todo sorridente e descontraído era cumprimentado e cumprimentava buzinando muitas pessoas durante o trajeto. Acabamos fazendo uma parada num hotel/resort onde eles tentavam conseguir serviço e o que vi foi no mínimo interessante. Uma praia de areia branca exclusiva para os hóspedes separada por uma cerca da praia pública. 

De areia preta.

Quando sobrevoei a ilha era claro que sua costa é predominantemente escura formados por areias e rochas pretas devido à fragmentos de lavas vulcânicas nesse caso oriundos do vulcão ativo: La Soufrière. Depois de analisar as fotos que tirei enquanto sobrevoava a ilha,  as únicas praias de areia branca eram “tomadas” pelos hotéis da ilha. Mas aquela cerquinha dividindo a mesma praia entre areia preta e branca me dizia algo mais. Aquilo era necessário para vender que no país: “a Villa Beach oferece areia branca e uma variedade de opção de alojamento” como exemplifica o guia que eu tenho do Caribe. 
Repare a única praia de areia branca

A beleza que eu vou guardar de São Vicente e Granadinas, apesar de eu não ter conhecido de fato as partes “granadinas” do país, vai muito além de praias de areias brancas (ou pretas) e fachadas turísticas. 
Aeroporto de Bequia (TVSB)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Saint Lucia (Uma outra nação independente!)


Essa foto pode parecer que tirei do avião numa aproximação muito mal feita no aeroporto de Sta Lucia, mas na verdade foi tirada da varanda do nosso hotelzinho. (De uma ou duas estrelas, o mais econômico que encontramos ainda assim com essa vista). Sim , existem construções e ladeiras bem na cabeceira da pista 27 e por esse motivo, pousar desse lado pode ser bem desafiante!

Dessa vez deixamos a ideia de alugar um carro de lado e decidimos explorar esse país de barco. Como não era alta temporada apenas duas senhoras nos acompanharam no passeio em um barco acostumado a levar até 18 pessoas. Enquanto navegávamos ao redor da ilha, a cada curva tínhamos uma surpresa diferente. Conhecemos uma parte muito rica da ilha, onde famosos como a Oprah possuem suas mansões de veraneio. Em uma parada, descemos para um mergulho de superfície, onde vimos diversos peixes coloridos nadando entre corais coloridos em água incrivelmente clara e com temperatura bem agradável. 
Em uma das paradas, um guia nos levou em sua van no que ele dizia ser o único lugar do mundo onde você podia dirigir até a cratera de um vulcão. Não pudemos colocar a cara pra ver o buraco, mas na distância podíamos ver e sentir a fumaça quente e fedorenta de enxofre saindo do "centro"da terra. Ainda nesse lugar tomamos um banho de lama quente vulcânica, que diziam curar até a doença que você ainda não tinha! Ainda sujos de lama, fomos caminhar na floresta até encontrarmos essa cachoeira e piscinas naturais para nos limparmos em águas incrivelmente mornas! Foi o primeiro lugar onde eu vi uma cachoeira de água morna e achei o máximo! 





 Ao aproximarmos dessa fenda, escutamos um barulho muito agudo e após chegarmos bem perto estava claro: Morcegos. Centenas deles!









Saint Lucia é famosa pela formação de seu relevo com destaque para seus "pitóns": Duas montanhas vulcânicas em formas de triângulo que se destacam sendo vistas facilmente do mar e de algumas cidades como a sofrida Soufrière que já se reconstruiu várias vezes após terremotos, incêndios e furacões. 

Quer visão mais privilegiada do que poder ver Saint Lucia e seus "pitóns" lá de cima? O que mais podíamos pedir?



Um arco-íris!



Os Pítons de Sta. Lucia do avião e do barco. Pouso em Sta. Lucia


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Martinique


St. Pierre 2012
“Eu senti o vento soprar com muita força, o chão começou a tremer, e o céu de repente ficou escuro. Eu virei para entrar em casa, com grande difuculdade, subi os tres ou quatro degraus que me separavam do meu quarto, e senti meus braços e pernas queimando, e também o meu corpo. Eu me deitei numa mesa. Nesse momento quatro outros buscaram refúgio no meu quarto, chorando e agonizando de dor, mesmo que suas roupas não tivessem nenhum sinal de terem sido ecostados por chamas. No fim de uns 10 minutos, a jovem menina Delavaud caia morta no chão. Os outros deixaram o quarto. Me levantei e fui a um outro quarto, onde achei o pai Delavaud , ainda com roupas, deitado na cama, morto. Ele estava roxo e inchado, mas suas roupas estavam intactas. Louco e perplexo me enfiei na cama e inerte esperei pela morte. Meus sentidos voltaram aproximadamente uma hora depois quando eu percebi o telhado pegando fogo. Com o resto de força que me restava, e com as pernas sangrando e cobertas de quimaduras, eu corri para Fonds-Sait-Denis, seis quilômetros de St. Pierre.”

Vários vulcões e montanhas pareciam surgir do nada, no mar azul-turquesa caribenho, e a maioria com seus peculiares traços de habitação. Enquanto pilotava, com frequência eu ficava pensando como deve ser crescer e viver em cidades na base de vulcões. Eu sei que a possibilidade de um vulcão entrar em erupção e dos moradores não correrem a tempo deve ser bem baixa, mas ao conhecer a ilha francesa de Martinique eu fui lembrado do poder e da “fúria” da natureza e de como somos vulneráveis. O pior desatre vulcânico do século 20 aconteceu nessa ilha, na cidade de Mont Pierre. Saindo da capital Fort-de-France, em menos de uma hora de viagem de carro pelas sinuosas estradas de Martinique, chegamos na pitoresca cidade de Mont Pierre, banhada pelo mar caribenho e ao pé do vulcão Mount Pelée. As contruções antigas, casas feitas de madeira e/ou de pedras irregulares e algumas ruínas não pareciam mostrar o que aconteceu a pouco mais de 100 anos naquele lugar. Com o charme da época era considerada como a “Paris” do Caribe quando Mount Pelée entrou em erupção, destruiu completamente a cidade e matou seus quase 30 mil habitantes, com exceção de duas pessoas. Léon-Compere-Léandre, um jovem sapateiro foi um dos dois únicos sobreviventes. Sim apenas duas pessoas sobreviveram, e o primeiro parágrafo desse post é uma tradução apressada de seu relato.

Fora essa história trágica, Martinique tem muita beleza nas suas praias, florestas, plantações. No alto das colinas, com a visão privilegiada do Caribe, estradas passam por plantações de banana, cana de açúcar, matas verdes com diversidade grande de flora e fauna. Era curioso dirigir nas estradas com padrão europeu, muito bem sinalizadas e asfaltadas com placas em francês abrindo caminho em cenário tão tropical. 

Algumas fotos:







Video: Decolando de St. Kitts and Nevis, pousando em Martinique


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ilhas Virgens

Pousar em Tortola foi uma atração à parte. Dava vontade de fazer uma aproximação mal feita para poder arremeter e tentar de novo só para continuar admirando o visual daquelas ilhas. Mas não foi preciso. Depois que tomamos uma balsa para ilha de Virgin Gorda, o visual nunca decepcionou. Nos hospedamos em uma espécie de apartamento de veraneio com uma vista fantástica. Lauralee, a dona do lugar, já estava a nossa espera no porto onde a balsa atracou, e com muita simpatia, nos acompanhou para alugarmos um pequeno jipe 4x4 (dificilmente um de tração normal subiria as ladeiras da ilha) e nos levou para comprar o básico de alimentação para nossa estadia. Como em muitas das ilhas que íamos conhecer dali em diante, o relevo era bem montanhoso. Andar nas estradas consideravelmente estreitas e íngrimes no lado esquerdo da estrada (por ser território britânico) e com o volante do lado "normal", dificultava ver se vinha tráfego na direção oposta. A paisagem sempre tentava tirar minha concentração, mas eu tinha que estar atento também ao curioso tráfego de cabras:


Acordamos no dia seguinte com esse visual:


Pegamos o carro, e após um sobe e desce de ladeira, fomos caminhar no Parque Nacional "Gorda Peak". São 800 metros de subida em uma trilha na mata que te traz à uma plataforma com um visual de tirar o fôlego. Outro lugar imperdível foi o "The Baths". É um conjunto de rochas grandes formando um conjunto de túneis e labirintos à beira-mar. Você agacha, sobe, nada, escala, pula as pedras com o mar caribenho sempre intercalando o visual.

Vídeo Ilhas Virgens



E para evitar ficar repetindo adjetivos como: "de tirar o fôlego, incrível, supimpa", aí vai um vídeo do que fizemos nas Ilhas Vigens, a decolagem do aeroporto de Beef Island e o "pouso" em St. Kitts and Nevis:


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Voando para as Ilhas Virgens

Foi um voo interessante. Despedimos da República Dominica, com Punta Cana em vista na costa leste do País e depois do mar aberto logo chegou Puerto Rico, com um espaço aéreo bem intenso, mas com o bem organizado sistema americano, fui informado pelo Centro de Controle de San Juan de várias aeronaves na minha rota. Um deles, um jumbo de carga da Fedex que passou abaixo do meu nível de voo, acabei conseguindo tirar uma foto:



 Apesar de não voar tão baixo quanto eu gostaria pudemos ver o Castillo San Felipe del Morro, famosa fortaleza histórica da cidade de San Juan onde à alguns meses atrás tive a oportunidade de caminhar e contemplar de perto.


Após Puerto Rico, as maravilhosas ilhas virgens americanas e britânicas fecharam nosso voo com chave de ouro. Aqueles montes verdes encrustados naquela água azul turquesa vistos lá de cima não pareciam reais. Tentando me concentrar para a aproximação no aeroporto da ilha de Virgin Gorda, eu não parava de perguntar o Don e o Rafael: "Vocês estão vendo o que estou vendo? Estão tirando fotos?"



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A cidade mais antiga das Américas


Após abastecimento em Puerto Plata, na costa norte, cruzei a montanhosa República Dominicana e cheguei na fervilhante capital, ao sul, Santo Domingo. Tendo estado na turística Punta Cana, estava ansioso para conhecer esse país da perspectiva de seus habitantes. Uma caminhada no centro histórico mostra a responsabilidade daquele povo de preservar a história da cidade mais antiga das Américas. Com a chegada de Cristóvão Colombo em 1492, os vários museus da cidade tem muita história para contar. Ali você vai encontrar a primeira igreja, o primeiro hospital, escola, etc das américas. Na tentativa de sobreviver a uma economia não muito estável e bem dependente do turismo, a todo instante éramos oferecidos serviços de todo o tipo; comida, taxi, passeios turísticos. Mas no pretexto de economizar dinheiro e viver o que o povo de lá vive, pegamos um ônibus lotação e fomos pra Boca Chica, o destino mais popular dos finais de semana dos dominicanos. Chegando lá, a informação visual era tanta que quase não percebemos que estávamos diante de uma linda praia de água azul-esverdeada caribenha. Estava repleta de gente; crianças brincando, famílias inteiras se divertindo, vendedores vendendo seus peixes (e quadros pintado a óleo!), sons de todos os tipos saindo dos alto-falantes dos carros e dos bares. Fiquei feliz de ver aquele povo alegre se divertindo nesse presente da natureza que muitas vezes é apenas explorado pelos turistas gringos.

sábado, 17 de novembro de 2012

Encarando uma tempestade no Oceano

Próximo destino era pra ter sido Turks and Caicos, mas como fiquei sabendo que os aeroportos lá estão cobrando taxas abusivas, decidi seguir direto para Santo Domingo na República Dominicana com uma parada para abastecimento e alfândega em Puerto Plata, na costa norte do País. Durante o planejamento de voo com ajuda do meu grande amigo Felipe Thomé que me acompanhou em tempo real durante todo meu trajeto, vimos uma tempestade na rota, com o centro dela, mais próximo de Turks and Caicos. Decidi decolar já que a previsão de tempo para a área era de instabilidade para toda a semana e tendo em mente que meu plano alternativo só podia ser Cuba, à Oeste.
As estatísticas mostram que na maioria esmagadora dos acidentes aéreos, a causa, é erro humano. E durante toda essa viagem, esse voo foi o mais próximo de eu virar mais um número. O julgamento para um voo seguro sempre começa no solo. Quando eu estudava os acidentes aéreos, eu sempre achava que eu nunca cometeria um desses erros. Cumulus Nimbus (umas nuvens nada amigáveis) pra mim era sinônimo de virar 180 graus ou de permanecer em solo. Mas sobre o oceano a gente nem sempre tem essa opção de voltar pra trás, já que o combustível que resta no tanque só te leva ao seu destino. Meu erro foi de decidir decolar, ponto. Em Exumas, o dia estava lindo, era difícil de acreditar que logo ali na frente um pesadelo me esperava. E começou assim: a visibilidade foi bem ao poucos diminuindo e fui corrigindo a proa um pouco pra Oeste onde parecia mais claro. De repente lá estava o cessninha dentro de uma nuvem. A chuva começou aos poucos bater no pára-brisa e o Don, meu único passageiro nesse voo acorda e olha pra mim: Eu com um sorriso na cara digo: "It's all right", mas a chuva foi pesando, a nuvem ficando cada vez mais escura e mostrando sua força. Liguei o aquecedor do carburator e do tubo de pitot pra evitar gelo e com isso perdi potência. Com muita atenção nos instrumentos eu sabia que minha maior preocupação naquele momento era deixar o avião de cabeça pra cima e nivelado. Tentei fazer contato com algum centro de controle, mas não vinha nenhuma resposta.
Calma. Era isso que eu precisava e me surpreendi. Eu tinha medo, mas estava calmo. Na minha cabeça eu repassava todos os procedimentos de emergência e minhas prioridades: 1o: Voar o avião. 2o: Navegar e 3o: Comunicar. Parece simples? Não é. A força dentro da nuvem era tanta que perdi mais de 1500 pés em um curto espaço de tempo, e não era difícil a turbulência me deslocar a mais de 30 graus da minha rota. Com o cinto de segurança bem preso a minha menor preocupação era com a turbulência. Claro, estava assustando o Don e o barulho da chuva parecia mais alto do que o barulho do motor girando ali, na nossa frente. Mas tenho que tirar o chapéu pra ele. Durante esse sufoco ele cruzou os braços e fechou os olhos, as vezes ele abria pra ver minha reação e vendo meu sorriso parecia assegurar que tudo estava bem. Quando a tempestade ficou pra trás e vimos com um grande alívio o bom e lindo céu azul na nossa frente ele me deu um tapinha nos ombros como que dizendo: Bom trabalho! De certa forma eu estava orgulhoso de mim mesmo; de poder saber que eu podia manter a calma e controlar o avião numa situação que já matou tanta gente. Ainda assim nada justifica minha decisão de decolar sabendo daquela tempestade. Naquele momento eu fui um péssimo piloto.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Exumas - Bahamas


Depois de ter entrada negada nas Bahamas e ter que voltar para os EUA com com um suposto "imigrante ilegal", não tive opção se não voar para outra ilha das 700 que Bahamas possui. O combustível do cessninha não me permitiria voar além disso. Com Exumas na  proa, fizemos um voo tranquilo. A simpatia com que fui recebido no aeroporto, me fez lembrar a nunca julgar uma nação pela experiência com apenas uma pessoa, como no caso do oficial da Ilha de Bimini.




Em uma das 700 ilhas, jovens jogando basquete, com um sonho em comum: Querem ter o barco próprio!


Na fila, no meio de gigantes.




Fila de decolagem do aeroporto internacional de Fort Lauderdale. O que será que os pilotos das linhas aéreas pensavam quando viam o cessninha competindo espaço naquele aeroporto?

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

De quase atrás das grades para o paraíso.


Quem tem acompanhado o blog sabe que eu não escrevi muito no último ano, mas vou escrever uma desculpa esfarrapada: O blog se chama "Do Canadá ao Brasil", e não fazia muito sentido escrever o que não fazia parte dessa aventura, mas ainda assim não resisti à tentação e tive que descrever umas experiências, como atravessar os EUA de ponta a ponta de moto e alguns eventos na Flórida. Mas muitas outras coisas aconteceram nesse meio tempo, que talvez devido a correria não me permitiu compartilhar. Como minha visita aos subterrâneos de guerra de Berlin, na Alemanha, com um grupo de uma universidade holandesa, onde minha amiga estuda. Também a melhor das experiências que foi ser o acompanhante de três crianças da Gambia (3, 7 e 12 anos de idade) em um voo de NY para Seattle para o reencontro com a mãe deles depois de 3 anos separados. É uma história emocionante mas espero escrever em uma outra oportunidade.
A notícia boa é que a Flórida ficou finalmente para traz e estou escrevendo isso em uma ilha do Caribe, escutando as ondas do Atlântico quebrarem a uns 20 metros penhasco abaixo. A vista é deslumbrante. As vezes penso que estou no paraíso, mas logo lembro que o paraíso também tem seus defeitos: A cada cinco palavras escritas tenho que parar pra abanar ou coçar pela picada dos mosquitos. Chegar nesse paraíso no meio de uma mata fechada, também não é muito fácil. A estrada, estreita, boa parte de terra, é desafiante, passa por montanhas, curvas que quase te permitem ver a placa traseira do carro que você está dirigindo. Para piorar, o carro que dirijo tem o volante do lado direito e o tráfego por aqui é sempre pelo lado esquerdo. Uma das lembranças que o domínio inglês deixou por aqui. Estou escrevendo isso na minha décima parada depois da Flórida, em Grenada, o penúltimo país antes de eu chegar na América do Sul. Esse tempo pra escrever surgiu porque hoje era pra eu seguir pra Trinidad & Tobago, mas a previsão de tempo por lá não era das melhores e decidi ficar por aqui por um dia mais. 
Comigo vão grandes amigos: Don, o cara que pagou pelo avião, e Rafael, que através do Don e de uma grande coincidência fui conhecer na Flórida, e acabamos dividindo o mesmo teto durante boa parte da minha estadia nos EUA. Rafael, depois dessa viagem vai ser quase um piloto. Vai faltar só o brevet! Seu interesse pela aviação é tanta que mesmo sem saber que poderia fazer a viagem comigo me ajudou imensamente com planos de voos e todos os preparativos de viagem antes de seguirmos viagem em mar aberto.
Depois de muita correria com o fim da estadia da minha mãe e avó que me deram o presente de me visitarem na Flórida, a chegada do Don, de Seattle e todo o trabalho de devolver o apartamento que Rafael e eu estávamos alugando, o dia 15 de Novembro, marcado pra nossa decolagem da Flórida, chegou. E o voo pra Bahamas, nossa primeira parada aconteceu. Bem, como só conseguimos partir pela tarde, acabei decidindo ir pra Bimini, uma ilha bem mais próxima que Exumas, onde planejamos inicialmente.  O voo foi tranquilo e após pousar naquele aeroporto um tanto rudimentar, o sorriso estampado nas nossas caras diziam tudo: Está acontecendo, estamos seguindo rumo ao Brasil! Eu amo viajar e sei que pedras no caminhos sempre surgem e estar preparado para elas é muito importante para manter a fleuma e o humor pelo mundo. Mas eu realmente não esperava que na primeira parada o desafio seria assim: Entrada negada! O oficial daquele minúsculo aeroporto, que como ele mesmo disse, no meio do nada, parecia não entender que mesmo que o visto do Rafael nos EUA estivesse vencido, seu status era legal por lá já que ele tinha conseguido uma extensão de estadia para seus estudos. Por causa disso ele impediu sua entrada nas Bahamas e consequentemente a minha, que era o piloto da aeronave que o trouxe a bordo. Rafael já não podia voltar aos EUA, por cauda de seu visto e me vi entre a cruz e a espada. Tentamos explicar para o oficial, mas ele não parecia muy amigo e nossas únicas opções eram voltar para o avião para decolagem imediata ou ser preso pelo guardinha que já estava nos aguardando. Bahamas não permite voo após o por do sol e o sol ja estava se escondendo no mar caribenho. Corremos para o avião,  e pelo celular, na correria, fiz o plano de voo e todos os requerimentos de voo internacional em 3 minutos (geralmente preciso de quase uma hora) e decolamos. Com o combustível restante não tinha para onde ir, a não ser voltar para os EUA, com um passageiro a bordo sem o visto e ver o que aconteceria por lá. A apreensão era grande mas não pudemos deixar de contemplar aquele magnífico por de sol, la de cima! Pousei no aeroporto internacional de Fort Lauderdale, na segunda posição, atrás de Boeing 737 e depois de muitas entrevistas, explicações e quase duas horas depois, a policia de imigração dos EUA nos surpreendeu e deu uma permissão de uma semana para o Rafael, com uma condição: Eu deveria assinar uma carta de deportação, em que eu seria o piloto responsável pela sua saída do país! Com o apartamento devolvido, tivemos que, ironicamente, buscar um hotel no nosso primeiro dia de viagem, na cidade onde moramos por quase um ano. Achando um luxo por não ter que dormir atrás das grades...

Voo da Flórida à Bimini, Bahamas


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Peixe Voa? (St. Kitts and Nevis: Um país!)



Hoje no trajeto de barco de uma ilha com um vulcão no meio pra outra ilha com outro vulcão no meio, estava eu um tanto distraído olhando para o mar verde-azulado do Caribe quando um peixe que eu observava saiu da água, voou por alguns segundos a uma velocidade muito superior à do barco e voltou pra água. Mas aquilo era realmente um peixe? Ou era um pássaro? Alguns minutos depois eu vi outro e mais outro até quando eu vi um cardume inteiro voando e aprendi: Peixe voa!
Saint Kitts and Nevis é o nome dessas ilhas no mar do Caribe, que como aprendi recentemente formam uma nação independente. O domínio britânico nessas duas ilhas perdurou até meados do fim do século passado, deixando um país em que se fala inglês (com um sotaque carregado) e ruas com tráfego no sentido inverso ao nosso. Não é um país rico, mas também não há muita pobreza como vi à alguns dias na República Dominicana. O povo é muito cordial e simpático, maioria de pele negra, descendentes de escravos. Nevis era famosa pelo seu mercado de escravos que possuía os mais desejados do Caribe e foi lá que nasceu Alexander Hamilton, o cara que ajudou a criar a democracia nos EUA e que hoje aparece nas notas de 10 dólares.

Aqui nasceu o cara das notas de U$10, Alexander Hamilton


Fora os cruzeiros que devem trazer mais da metade da população da capital, Basseterre, em um só dia, as ruas de St. Kitts e Nevis tem um ritmo caribenho especial que é facilmente ilustrado com uma observação: É o primeiro país que eu conheço que não têm e nem precisa de sinal de trânsito! 


Chegando no aeroporto de Nevis o vento estava muito inconstante e a torre acabou me mandando para o lado desfavorável da pista . Fui aproximando e eu acabei chegando rápido e alto demais devido ao vento e tive que arremeter. Subi de volta para mil pés, me preparei novamente para o pouso e novamente não consegui pousar. Confirmei com a torre que o vento tinha invertido e pousei suavemente na outra direção.