quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Trinidade e Tobago - Burocracia e corrupção andam de mãos dadas

De olho bem aberto e atento nas nuvens em Trinidade e Tobago, parti de Grenada, pronto para o voo.  A estadia na ilha anterior foi prolongada porque o tempo não parecia bom. Desde quando eu parti da Flórida, a nuvens pareciam estar estagnadas em Trinidad com tempestades de chuva e raios. Apesar da minha constante preocupação para aquele trecho, o atraso foi de apenas um dia. Um bom piloto deve se orgulhar da decisão de não voar às vezes, o que pode ser uma decisão muito difícil principalmente quando existem vários tipos de pressão externa, mas principalmente de aspectos comerciais. Não era meu caso, ainda mais quando a hospedagem em Grenada pudesse facilmente me fazer a usar o mal tempo mais como uma desculpa do que uma honesta justificativa. Já que a previsão do tempo estava mais miserável pela tarde, saímos bem cedo de Grenada. Com uma ou outra nuvem para desviar, o voo foi bem tranquilo. Ao contornar as montanhas ao norte do país, que segundo eu li em algum lugar é a extensão das cordilheiras dos Andes, chegamos avistar a Venezuela. Entre as montanhas, uma extensa área urbana e industrial em contraste com as paradisíacas paradas dos últimos dias, junto com a tranquilidade do voo começou me dar uma sensação de “missão sendo cumprida”. Uma falsa sensação. 

Voar seria a tarefa mais fácil no “projeto” de chegar no Porto de Espanha, a capital do país. A burocracia para poder entrar naquele país foi tanta que quase superou a brasileira. Após seguir as instruções de taxi da torre de controle para o posto de abastecimento e cortar o motor, eu estava por conta própria. Fechei o avião, pegamos as mochilas e começamos a andar no pátio procurando a alfândega. Com os documentos de entrada já preenchidos, inclusos as 14 cópias das declarações gerais que eles exigem para entrada e saída (normalmente em outros países, 3 é suficiente), fui passando por vários agentes do governo. Como o de saúde, que não queria nos deixar entrar porque não tinha ninguém para desinfetar o avião com pesticida, uma lei do país. Por alguma outra razão tive que refazer as declarações gerais e começaram a arranjar vários outros empecilhos. Queriam que eu fizesse as burocracias com uma empresa privada que nada mais é naquele caso que uma empresa oficial de corrupção. Em todos os outros aeroportos muitas vezes eu tinha a opção de poder fazer os tramites com uma dessas empresas despachantes, “handlers”, mas porque eu não tinha muita pressa e queria economizar dinheiro eu tentava sempre fazer por conta própria. Entretanto em Trinidad, quando me passaram o telefone para o chefão da empresa, queriam me cobrar U$350 para o serviço. Quando eu disse que o preço era um absurdo diminuíram para U$150 e considerando as outras taxas caríssimas do aeroporto, decidi que se eu não entrasse por conta própria eu desistiria de entrar no país, e desliguei o telefone. Uns quatro funcionários da “empresa” pareciam se divertir com a situação. Principalmente quando me informaram que o agente responsável por checar as malas estava do outro lado do aeroporto. 

Quando abri a porta daquele terminal para voltar para o avião e taxiar para o outro lado, os seguranças que agora pareciam ter surgido do nada, disseram que era ilegal caminhar pelo pátio sem escolta e para que eu tivesse uma, teria que pagar a tal da empresa. Ou seja: Eu estava proibido de entrar no país, não tinha como ligar para ninguém e nem podia voltar no avião, até que o oficial chegasse as 17 horas ou eu pagasse os U$150. Eram umas 10 horas da manhã. Decidi esperar. Umas duas horas depois, o Don encontrou um porteiro que acabou resolvendo a situação com uma chamada de telefone. Em 15 minutos o agente veio e estávamos liberados para conhecer o país. Um pouco decepcionado por toda essa situação fiquei tentando entender o que pode fazer um país ser tão burocrático. A gente sabe que burocracia e corrupção andam de mãos dadas e ao ver tantos indianos (ou descendentes) trabalhando naquele país minha mente preconceituosa e generalizadora quis colocar a culpa naquela cultura. Trinta e cinco por cento da população de Trinidad é composta por descendentes de indianos. A Índia é um dos países mais burocráticos do mundo. Algumas décadas atrás fugindo exatamente do sistema opressor, vários indianos cruzaram os oceanos numa jornada de três meses em busca das ofertas de trabalho nas plantações de açúcar deixadas pelos escravos recém-libertos. O que vemos hoje é uma relativamente forte influência hindu no Caribe, onde eu menos esperava. 

Quando eu estou fora do Brasil eu sempre falo muito bem do meu país até que parece surgir uma contradição no meu discurso. “Se o seu país é tão bom por que você foi buscar oportunidades fora dele? Por que não é um país de primeiro mundo?” E então, tenho sempre que emendar: “Mas tem muita corrupção”. Assim como  a Índia e Trinidade e Tobago. Isso me coloca numa posição de igualdade com os indianos e os trinitário-tobagenses. E eu me pergunto, como vítimas de uma cultura corrupta ou como parte dela? Eu tenho muito orgulho de dar o exemplo do meu pai, Wilian Junqueira, uma das pessoas mais honestas que conheço. Certa vez, de férias, meu pai estava ensinando meu irmão mais velho a dirigir quando ele tinha menos de 18 anos, em uma estrada de terra. Um policial surgiu, parou o carro e pediu a carteira do meu irmão. Meu pai falou que ele não tinha e o policial disse: “Você sabe que isso é ilegal, né?” Sim, disse meu pai. O policial seguiu: “Que é uma infração gravíssima e que eu deveria multar e apreender o seu veículo”. O policial só faltou pedir os R$50 reais, quando o meu pai disse, com o bigode dele, todo sério: “Que cumpra-se a lei.”. Quantos de nós brasileiros agiriam assim? Quantos de nós usamos nosso especial “jeitinho brasileiro” para conseguir benefícios pessoais. Um exemplo? O meu próprio quando eu uso minha carteira de estudante vencida para conseguir desconto em cinema. Eu tenho vergonha de fazer isso mas é por essas coisas que parecem pequenas que continuamos onde estamos. Os políticos em seus gabinetes são muitas vezes reflexos de nós mesmos embriagados pelo poder concedido por nós, pelo povo. Mas eu divago...

Meio emburrado com toda aquela situação, não consegui aproveitar muito Porto de Espanha e acabei visitando um zoológico que me deixou ainda mais desconcertado ao ver os animais naqueles espaços tão apertados. Fora um parque bem verde no meio da cidade, algumas construções modernas e outras mansões antigas e conservadas não vi nada que chamasse muita a minha atenção.


Sair do país, foi ainda mais complicado que a entrada quando começaram a exigir documentos como declaração de carga e de passageiros como se eu fosse uma linha aérea, e eles (os funcionários do aeroporto) não tinham a menor ideia de como eu conseguiria aqueles documentos se não com os funcionários da “empresa” que insistiam que eu pagasse pelo serviço deles para me darem a cópia dos documentos. Comecei a andar enfurecido pelo aeroporto entrando de sala em sala explicando a situação quando consegui ajuda de um senhor muito simpático (com traços indianos, diga-se de passagem),  que acabou sendo a pessoa mais agradável que eu conheci em Trinidad. Ele trabalhava numa área sem nenhuma ligação com meus problemas e me ofereceu seu computador e impressora para que eu procurasse no google como fazer o documento. Era complexo e precisava de um par de códigos dependendo do tipo de carga, número de passageiros, aeroporto de destino e origem que eu não tinha a menor ideia nem paciência de como achar. Assumi que o funcionário do aeroporto que recolhia esse documento, também não saberia e coloquei letras quaisquer. Imprimi e funcionou. Decolei aliviado não vendo a hora de chegar na América do Sul.

Um comentário:

  1. Eh Gustavo, e bota aventuras nisto!!!!! Haja estórias interessantes vividas por você!!!!

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