sábado, 17 de novembro de 2012

Encarando uma tempestade no Oceano

Próximo destino era pra ter sido Turks and Caicos, mas como fiquei sabendo que os aeroportos lá estão cobrando taxas abusivas, decidi seguir direto para Santo Domingo na República Dominicana com uma parada para abastecimento e alfândega em Puerto Plata, na costa norte do País. Durante o planejamento de voo com ajuda do meu grande amigo Felipe Thomé que me acompanhou em tempo real durante todo meu trajeto, vimos uma tempestade na rota, com o centro dela, mais próximo de Turks and Caicos. Decidi decolar já que a previsão de tempo para a área era de instabilidade para toda a semana e tendo em mente que meu plano alternativo só podia ser Cuba, à Oeste.
As estatísticas mostram que na maioria esmagadora dos acidentes aéreos, a causa, é erro humano. E durante toda essa viagem, esse voo foi o mais próximo de eu virar mais um número. O julgamento para um voo seguro sempre começa no solo. Quando eu estudava os acidentes aéreos, eu sempre achava que eu nunca cometeria um desses erros. Cumulus Nimbus (umas nuvens nada amigáveis) pra mim era sinônimo de virar 180 graus ou de permanecer em solo. Mas sobre o oceano a gente nem sempre tem essa opção de voltar pra trás, já que o combustível que resta no tanque só te leva ao seu destino. Meu erro foi de decidir decolar, ponto. Em Exumas, o dia estava lindo, era difícil de acreditar que logo ali na frente um pesadelo me esperava. E começou assim: a visibilidade foi bem ao poucos diminuindo e fui corrigindo a proa um pouco pra Oeste onde parecia mais claro. De repente lá estava o cessninha dentro de uma nuvem. A chuva começou aos poucos bater no pára-brisa e o Don, meu único passageiro nesse voo acorda e olha pra mim: Eu com um sorriso na cara digo: "It's all right", mas a chuva foi pesando, a nuvem ficando cada vez mais escura e mostrando sua força. Liguei o aquecedor do carburator e do tubo de pitot pra evitar gelo e com isso perdi potência. Com muita atenção nos instrumentos eu sabia que minha maior preocupação naquele momento era deixar o avião de cabeça pra cima e nivelado. Tentei fazer contato com algum centro de controle, mas não vinha nenhuma resposta.
Calma. Era isso que eu precisava e me surpreendi. Eu tinha medo, mas estava calmo. Na minha cabeça eu repassava todos os procedimentos de emergência e minhas prioridades: 1o: Voar o avião. 2o: Navegar e 3o: Comunicar. Parece simples? Não é. A força dentro da nuvem era tanta que perdi mais de 1500 pés em um curto espaço de tempo, e não era difícil a turbulência me deslocar a mais de 30 graus da minha rota. Com o cinto de segurança bem preso a minha menor preocupação era com a turbulência. Claro, estava assustando o Don e o barulho da chuva parecia mais alto do que o barulho do motor girando ali, na nossa frente. Mas tenho que tirar o chapéu pra ele. Durante esse sufoco ele cruzou os braços e fechou os olhos, as vezes ele abria pra ver minha reação e vendo meu sorriso parecia assegurar que tudo estava bem. Quando a tempestade ficou pra trás e vimos com um grande alívio o bom e lindo céu azul na nossa frente ele me deu um tapinha nos ombros como que dizendo: Bom trabalho! De certa forma eu estava orgulhoso de mim mesmo; de poder saber que eu podia manter a calma e controlar o avião numa situação que já matou tanta gente. Ainda assim nada justifica minha decisão de decolar sabendo daquela tempestade. Naquele momento eu fui um péssimo piloto.


5 comentários:

  1. Pôxa estava suando só de ler seu depoimento, lógico já tinha entrado em pânico!! Quanto sangue frio, ou melhor que grande experiência!!! Sucesso!!

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  2. Manter o controle nesses momentos é a melhor opção. Pena que muitos não conseguem... Beijos Gu!

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    1. Mas todos podem conseguir Zig! Acredito que saber controlar as emoções não é dom, é técnica! Beijos!

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  3. Comando já passei por algumas dessas não no oceano, mas sobre o continente. A sua maior gloria e a de ter RECONHECIDO O SEU ERRO. Parabéns, muito provavelmente não acontecerá novamente. Parabéns também pelo controle do avião. Já voei guardado 50 minutos direto e tem horas que a gente quer se deixar levar pelo sentimento e não pelo instrumento e isso te mata.

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    1. É isso aí Murillo! Se a gente não reconhece nossos erros a gente não aprende e vira "estatística". Obrigado!

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