sexta-feira, 12 de julho de 2013

Belém (do Pará): "Paris n`América"

Aproximação em Belém
Chegando para a aproximação em Belém tive que voar no meu primeiro corredor visual. (Corredor visual é uma rota de voo pré-estabelecida basicamente para pilotos que podem ver fora da janela e navegar pelo relevo por exemplo. Para voar dentro de nuvens é necessário seguir regras mais rígidas e obedecer com precisão aos controladores). Como nunca tinha voado em um corredor visual antes, (tão comuns no Brasil) deixei claro ao controlador de aproximação de Belém que eu não era familiar com a área. Ainda assim ele me pediu para relatar quando eu avistasse o “mercado ver-o-peso”. Como eu não sabia o que era, perguntei. Ele me disse que era uma feira e que eu deveria ver várias tendas juntas. E foi assim, pelo rádio do avião, que eu fui apresentado à maior feira ao ar livre da América Latina! Me senti um idiota, por não saber desse mercado, ainda mais quando cheguei para ver de perto. Quanta diversidade! Quanta brasilidade! Frutas de todas as cores, temperos de todos os cheiros, gente de todo tipo. Tudo isso emoldurado pelo art nouveau da belle époque. Soa chique né? Para quem não sabe, (eu também não sabia) Belém já foi considerada a “Paris n’América” na época da borracha e muitas de suas construções ainda mostram sua relevância naquele período. Como o próprio mercado, cujas construções de ferro foram importadas da Europa para seguir a tendência artística francesa, à mais de um século atrás.


Mercado Ver-O-Peso no fundo



Do albergue onde me hospedei, Amazônia Hostel, fui conhecer alguns dos principais lugares da cidade a pé. Saí pela manhã, para evitar a chuva marcada diariamente para os tardes. Caminhei pela histórica estação das docas, onde vários passeios pelos rios e pela Amazônia eram oferecidos. Passei por várias fachadas lindas de casarões e igrejas do período colonial, pelo mercado e como tinha tanta coisa para ver ainda, quando a chuva chegou eu ainda estava caminhando. Ela chegou dramática logo após as nuvens negras e os trovões anunciarem sua vinda. Como o calor já era intenso era difícil saber se eu fiquei molhado de suor ou da água de chuva. Continuei minha caminhada pelas ruas histórias até chegar no Mangal das Garças. Fui explorando esse parque muito bem preservado com borboletário(o maior do Brasil?), várias espécies de aves, bichos e árvores enquanto esperava por um espetáculo marcado para o fim da tarde de uma plataforma elevada sobre o mangue: Um belo pôr do sol.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Voo solo de Macapá à Belém.

Voar entre as nuvens, seguindo os rios e admirar a selva lá embaixo me fez sentir como um pássaro... brasileiro! Dessa vez como não tinha ninguém voando comigo não me preocupei muito com as curvas e manobras fechadas, se é que você me entende. Me diverti sozinho, mas também tirei fotos e fiz vídeos de janela aberta para poder compartilhar essa experiência única.






Chegando em Belém (do Pará).

A capital do meio do mundo: Macapá

Do avião, ainda no hemisfério norte eu via: O hemisfério sul, Macapá, o rio Amazonas e claro: a pista de pouso!
Mar Amazonas. Não, não, Rio!
Uma semana depois de chegar no Brasil estou dentro do cessna sozinho e escuto no rádio, pela primeira vez em Portugês: “November 55473, decolagem autorizada.” Confiro minhas luzes, aciono o transponder. Mistura: Rica. Ar quente do carburador: Fechado. Gradualmente empurro a manete de potência e aos poucos o motor do avião mostra sua força e ganha velocidade. Quando o ponteiro do velocímetro marca 55 nós eu deixo que o avião se suspenda pelo ar e de repente o chão vai ficando cada vez mais longe. Me sinto colocando um óculos para assistir o mundo em 3D. Na minha frente o rio Amazonas, como um oceano, de água doce. Ele é o maior rio do mundo em comprimento, mas não é isso que me impressiona. Da minha perspectiva é impossível saber que ele nasce lá no Peru e deságua quase sete mil quilômetros depois. Sua largura é o que chama atenção. Quando eu cheguei na semana passada em Macapá, até o Don achou que estávamos na costa de algum mar. Lá do chão é quase impossível ver a outra margem. Esses dias em que fiquei agarrado no Amapá, fui para a beira do rio quase todos os dias. É lá que toda atividade acontece, e foi lá que eu matei minha vontade de comer a nossa deliciosa comida brasileira. Depois de tanto tempo fora, um arroz com feijão parecia meu manjar e eu um deus. De bucho cheio, restava ficar admirando o rio. Ver as pessoas caminhando, as crianças fazendo arruaça, os meninos jogando bola na margem enquanto a maré baixava e no fim de quase todas as tardes, quando o vento ganhava mais força, dezenas de pessoas fazendo kitesurfing. A surpresa para mim foi saber que eu podia ir do hemisfério norte pro hemisfério sul, sem sair daquela cidade, e caminhando! Na verdade com apenas um passo você muda de hemisfério, já que Macapá é a única capital brasileira a ser cortada pela linha do equador!

Essa foto é quase um cliché do Brasil no exterior: Meninos jogando bola no Rio Amazonas.
Kitesurfing no Rio Amazonas
Do hemisfério norte ao sul, com apenas um passo!
Como a perspectiva de ficar agarrado em Macapá era maior que o previsto, o Don acabou voltando para os EUA e o Rafael seguiu pra Bahia de avião comercial. Outros pilotos também estavam agarrados e  me disseram que eu teria que ficar lá por no mínimo uma semana mais. A ANAC (ou Anarc como diz meu amigo Kamal) é a pedra no sapato de todo piloto brasileiro. Eu não imaginava que os empecilhos que ela colocaria na minha vida cresceria de uma pedrinha no sapato para uma rocha na frente do avião (como na frente de tantos outros). Na espera eu comecei a estudar minhas opções e me descobri literalmente ilhado. Macapá não se liga a nenhuma outra capital do Brasil por estradas e se não for pelo rio não há quase nenhuma opção. Uma delas seria pegar um ônibus e seguir mais de 500 km de estrada para chegar em Oiapoque (pra dizer que já fui lá) ou eu poderia simplesmente pegar um barco e visitar minha amiga Jô, em Manaus. Seriam apenas 6 dias de viagem pelo rio Amazonas passando por Santarém e confesso que já estava começando a ficar animado com a possibilidade quando soube que o cessninha estava liberado. 

Graças a Tower, empresa despachante recomendada pelo amigo Kamal, acabei conseguindo minha permissão de voo antes do que sairia normalmente com o conflito que a ANAC estava arranjando. Todo o processo de exportação tem sido conduzido com maestria pelo Luiz e o Rafael que trabalham por lá. A comunicação por quase um ano foi quase diária e já sentia que os conhecia sem mesmo nunca ter visto o rosto deles. Responderam todos os e-mails e trabalharam em todos os detalhes com muito profissionalismo e eficiência.

Fortaleza São José
De olho nos navios inimigos no Rio Amazonas: Fortaleza São José
Mais fotos: Clique aqui.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Chegando no Brasil


Estou a 5500 pés. Lá embaixo tudo é verde com pinceladas de ipê-amarelo. Tantas árvores juntas, aqui de cima, parece uma coisa só. Um único organismo. Vivo. Minha única referência é meu sistema de navegação para eu saber onde estou. No meu GPS, uma linha me indica que estou entrando em território brasileiro. Ainda que não haja nenhuma demarcação lá embaixo, nas árvores, sou tomado por uma intensa onda de alegria e emoção. Depois de tantas horas de voo e de tanto sonhar, estou voando no meu próprio país, pela primeira vez, por conta própria. Na minha imaginação eu posso escutar a música do tema da vitória. Eu abro a janela do avião e as árvores lá embaixo me acenam. A selva é o meu espectador. Ou o contrário? Não, não me iludo. Essa “conquista” nada mais é que uma vitamina para o ego. Eu sonho, estabeleço metas, mas tento não esquecer que sou parte de um sistema, da natureza. Para cada degrau que eu subo, eu lembro que alguém teve que colocar o tijolo na escada. Várias árvores trabalharam para gerar o oxigênio da combustão do motor e também do ar que eu respiro aqui em cima. Meu sentimento é de conquista, mas ainda mais de respeito e gratidão. Talvez até de dívida. Dessa perspectiva sou eu que reverencio a terra e não o contrário. Essa floresta tão grande talvez seja um dos únicos lugares na terra que estão intocados pelo ser humano. As árvores, os rios e os bichos lá embaixo parecem ser sobreviventes de uma guerra com os próprios homens. Queremos demais e muitas vezes esquecemos de dar nossa contribuição. A ganância da nossa raça é auto-destrutiva e se não fazemos nossa parte destruímos o sistema em que fazemos parte.

De repente escuto no rádio: “November 55473, central amazônico, na escuta?” É o controlador de voo, me lembrando que não estou sozinho e interrompendo meus devaneios. Ao aproximar de Macapá minhas boas vindas aos ares tupiniquins acontece seguida da seguinte informação: “Aeroporto interditado. Voo em espera requerido a noroeste da terminal”. 


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Passando pelo suriname entre duas asas e uma hélice. E Guiana Francesa.


Você deixaria de conhecer algum país por dizerem ser perigoso e violento? O que a gente mais escuta sobre países como México, Colômbia e Venezuela? É  muito triste ver pessoas que deixam de conhecer uma cultura diferente e suas pessoas com medo do que pode acontecer pelo o que foi visto na tv. No Brasil mesmo, deixamos de receber muitos turistas porque o que aparece na mídia lá fora nem sempre são as sete maravilhas. Eu me surpreendi quando visitei Bogotá, na Colômbia e várias cidades mexicanas. Sempre me senti muito seguro nas viagens por pior reputação que o lugar tenha.  Dos mais de 50 países que viajei, sabe qual foi o único onde fui ser assaltado? Brasil! Quando visitava as praias do Espírito Santo com um grupo de amigos da faculdade. Os “vilões” que a gente sempre vê nas mídias, estragando a imagem de um país e de uma cultura inteira, sejam ladrões, traficantes, assaltantes, são sempre a minoria, mas infelizmente eles sempre levam o destaque. Ligar a televisão para mim as vezes parece ver um filme de terror, é tanta coisa ruim sendo veiculada que a gente fica com medo até de sair de casa. Estamos de todos os lados sendo bombardeados pela cultura do medo. Na aviação, por exemplo, o que a gente mais ouve falar? Que um avião caiu, explodiu, o piloto passou mal. Apesar de tantos acidentes as estatísticas comprovam: O avião é o segundo meio de transporte mais seguro do mundo! Só perde para o elevador. Quantas pessoas lembram de ter visto nos jornais que o Brasil bateu recorde  de velocidade mundial com um avião pequeno desenvolvido na UFMG?

Com tanta informação ruim nos refugiamos em casa e perdemos um mundo inteiro passando lá fora. Mesmo que não tenhamos a oportunidade de viajar a gente perde muito quando deixamos de ir numa praça da cidade ou um parque, conversar com estranhos. Isso é também uma auto-crítica: Para voar da Guiana para a Guiana Francesa, evitei o Suriname que está no meio porque ouvi algumas coisas ruins. Minha insegurança era mais pelo avião e pela segurança do aeroporto como outros pilotos me alertaram. Mas será que esse alerta não tinha a ver apenas com o “distúrbio de Albina” que aconteceu por lá uns 3 anos atrás? Foi um evento isolado em que segundo a imprensa mais de 80 brasileiros foram atacados (brutalmente, como a mídia gosta de usar). A verdade é que eu perdi uma oportunidade de conhecer o único país a falar holandês na América do Sul. 


Como não tínhamos visto para a Guiana Francesa (fiz de tudo para conseguir), o dia seria muito longo e teríamos que estar preparados para chegar no Brasil naquele dia mesmo. Por isso decolamos um pouco depois do nascer do sol de Georgetown. Foram quase quatro horas e meia de voo, boa parte sobre  a selva amazônica surinamense, após uma noite muito mal dormida. Quando chegamos em Cayenne, capital da Guiana Francesa, descobrimos que a tripulação não precisava de visto. Como americanos também não precisam, nosso único problema era com o Rafael que com a ajuda de um funcionário do aeroporto que falava inglês nos acompanhou e foi nosso intérprete para a polícia de imigração (que só falava francês) e disse que o Rafael era o co-piloto. Com isso estávamos dentro de território francês e poderíamos descansar e dar uma volta por Cayenne antes de seguir viagem para o Brasil no dia seguinte. A tarde, todo o comércio estava fechado num dia de semana e a cidade parecia morta. A impressão que tivemos era que ninguém trabalhava naquele lugar. As 18 horas porém, o comércio reabriu e pudemos ver Cayenne com um pouquinho mais de movimento. Não vimos muito mas foi com nossos próprios olhos, fora de quatro paredes ou confinados num avião.

Aproximação para o aeroporto de Cayenne

Quase que o Rafael fica preso "do lado de fora" do país!

A costa de Cayenne não é uma das mais bonitas. Mas a foto foi para mostrar os flamingos vermelhos. Viu?

Voando de janela aberta para espantar o sono.
Mais fotos aqui.

domingo, 7 de julho de 2013

Guiana. Nossa primeira parada em um continente ou apenas outra ilha?



De Porto de Espanha seguimos a costa do Atlântico norte da Venezuela e da Guiana num extenso trecho de voo para aterrizar na capital daquele país: Georgetown. A comemoração de chegar na América do Sul e de estar finalmente em um continente contrastou com o isolamento daquele país. Durante o voo eu só via matas e florestas bem densas e elas acabam formando 80% do país. Guiana me deixou a impressão de ser uma ilha mais isolada do que as próprias ilhas caribenhas com algumas pinceladas a menos de cor. 

Os oficiais no aeroporto, o taxista, os funcionários do albergue nos trataram sempre com muita simpatia. O "Hotel" Tropicana, onde nos hospedamos era uma das opções mais simples que encontramos e ficava no segundo andar de uma boate cujo lema é algo como: “A noite toda”. A construção simples de madeira tremia tanto com a música alta que junto com o calor e a umidade infernal nos deixou claro que a “noite toda” era para ficar acordado, mesmo que fosse no meio de uma semana. 

Caminhamos pela cidade no fim da tarde e junto com dois mochileiros ingleses que também se hospedavam no Tropicana, comemos em uma churrascaria brasileira que de brasileira só tinha mesmo o nome. Georgetown (ainda bem que em português não traduzimos para: Cidade do George!) não tinha muito a oferecer. As ruas eram um pouco sujas e bagunçadas. Parecia (e era!) longe de tudo: do aeroporto (1 hora de táxi) e de outras cidades grandes (alguns pares de milhares de quilômetros). Como a pior coisa a se fazer é generalizar um país pela capital eu prefiro acreditar que eu perdi muito por não ter explorado as outras partes do país, sua floresta amazônica, rios e cachoeiras, como a Kaietur Fall em que nossos amigos ingleses visitariam no dia seguinte a bordo de um pequeno avião. 

As Guianas e o Suriname são países que sempre chamaram minha atenção. São os nossos vizinhos que lá do sudeste a gente nunca ouve falar nada deles. A Guyana “inglesa”, que hoje é completamente independente da Inglaterra, é o único país na América do sul em que se fala inglês e a usar (junto com o Suriname) o lado esquerdo para direção. Curioso para saber mais desse nosso vizinho acabei encontrando um fato curioso e triste da história guianense. Jonestown, uma comunidade no noroeste do país foi o plano de fundo de um dos maiores casos de suicídio/assassinato em massa. Liderado pelo ‘‘reverendo’’ Jim Jones de um segmento cristão americano, Templo do Povo (People’s temple), mais de 900 pessoas, (inclusos mais de 300 crianças e maioria estado-unidenses) foram mortas em um só dia no final de 1978. Esse é mais um exemplo na nossa história de como somos facilmente influenciados e manipulados por um bom orador que com um livro na mão julga ter a palavra e executar o desejo de “Deus”. Religiões fundamentalistas, dessas que crescem tanto no Brasil e mundo afora, liderados por gente que diariamente tenta inclusive infiltrar na nossa política(em um estado que dizemos ser laico), não fazem muito diferente ao aprisionar as almas de tantas pessoas, forçando-as a viver em nome de um falso amor e escravizando-as pela culpa. 


No dia da partida, saímos do hotel, as 5 da manhã de uma quinta-feira e a música e o barulho da boate ainda seguia em potência máxima. O próximo destino era Cayenne e como eles exigem visto para brasileiros não tínhamos certeza se poderíamos passar a noite na Guiana Francesa, caso contrário teríamos que, após abastecer, seguir viagem para o Brasil.

O ronco do motor do avião era como música de ninar depois de tentar dormir em quartos em cima de uma boate.
Mais fotos aqui.