segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Qual a melhor parte do seu dia?


Qual foi a melhor parte do seu dia? Eu escutaria essa pergunta quase todos os dias enquanto eu aprendia a pilotar em Seattle e invariavelmente eu responderia: “Voar”. Os dias em que eu não pudesse voar eu teria que vir com alguma resposta do tipo: “As nuvens”. Então ela me pediria para falar mais sobre elas. Talvez ela não estivesse muito interessada em saber se eram altostratus ou stratoscumulus, mas na minha inocência eu responderia tecnicamente, com todos os detalhes. Ela escutaria com toda a atenção e absorveria tudo o que eu tinha para dizer. Inevitavelmente ela iria esquecer   já que ela estava no estágio inicial da doença de Alzheimer. Com o passar dos dias, ela me faria aquela mesma pergunta com mais frequência, talvez duas, três ou mais vezes por dia. Eu não me importava de responder o mesmo outra e outra vez. No caminho eu estava praticando meu inglês enquanto ela corrigia minha pronúncia. Seu nome era Barb, uma professora entre outros, de inglês. Provavelmente por causa de sua profissão uma das últimas habilidades que a doença lhe roubou foi a sua fala e também sua apreciação pela vida. Quando a morte parece estar mais perto, a gente aprende a rever valores, mas eu podia perceber que seu otimismo era parte de seu espírito e não de seu estado.
Eu conheci a Barb aproximadamente na mesma época quando ela foi diagnosticada, há uns cinco anos atrás quando os médicos diziam que ela “viveria” ainda uns cinco anos mais. Durante esse período difícil, ela e seu marido não apenas me deu boas vindas a sua casa, como me fez também sentir como parte da família. A rápida conexão que eu tive com ela é algo difícil de explicar e eu tenho que admitir que eu tenho lágrimas nos olhos enquanto escrevo essas linhas e muitas vezes quando penso sobre isso. Meu sentimento foi de que tínhamos nos reconectado depois de nos termos separados por muito tempo e que a gente teria um tempo limitado para estarmos juntos antes que ela tivesse que partir de novo. Sua pergunta favorita, martelaria na minha cabeça muitas vezes por dia até mesmo quando estávamos distantes um do outro e isso teve um efeito muito grande na minha vida. Numa época em que eu acostumava a sonhar acordado a maior parte dos dias eu iria aprender que o dia mais importante na nossa vida não está no futuro nem no passado. É o dia de hoje. É onde/como estamos, quem somos agora mesmo. Estar consciente do dia presente, sem máscaras, fantasmas do passado ou medos do futuro pode ser um desafio a alcançar, mas é também uma graça. Com isso ela mantinha um sorriso constante no rosto, mesmo sabendo da sua doença.
Eu nunca tive a oportunidade de levar a Barb para voar, mas eu penso constantemente nela quando eu voo. Ela teve parte significativa no meu desafio de aprender a voar, de aprender inglês e também no meu voo de mais de 100 horas em um pequeno avião do Canada ao Brasil. Por essa causa e em sua homenagem decidi colocar na matrícula do cessninha exportado para o Brasil, suas iniciais. O avião ficou agarrado em solo por mais de meio ano esperando uma autorização da ANAC e uma vistoria para voar pela primeira vez com seu novo registro brasileiro. Barb nos deixou no dia 25 de Julho/2013. No dia seguinte o avião estava liberado para voar e meu amigo, Karol, decolou após ouvir da torre de controle: PP-BLJ (Barb Louis Johnson), decolagem autorizada.
Barb está livre, sem limites e agora que ela se foi eu ainda posso ouví-la me fazendo sua pergunta favorita, e ela sabe, onde quer que ela esteja, que a resposta agora é a memória dela me perguntando:  “Qual a melhor parte do seu dia?”



What was the best part of your day today?  I would have that question asked almost every day during my pilot training in Seattle and invariably I would answer:  "To fly". On one day or another I would not be able to fly and I would have to come up with an answer, like “The clouds”.  Then she would ask me, to tell her more about them.   I was not sure if she wanted to know if they were Altostratus or Stratocumulus clouds, but in my innocence that’s what I would answer  and explain it with all the details. She would listen carefully and absorb all I had to say, but  then she would forget because she had "early onset" Alzheimer's disease.  With the passing of the days she would ask me that same question with more frequency ,  maybe two, three or more times a day. I would not mind having to answer the same again and again. In this way, I was practicing my English and constantly being corrected. Her name was Barb and she was an English teacher and because of that the last ability the disease took from her was her speech, and  also her appreciation for life. One could say that when death is near it forces us to change some values, but I could tell that her “positiveness” was inherent to her spirit not to her state. 
I got to know Barb about the same time that she was diagnosed, about five years ago, when doctors were saying she had  about five more years to live. During these  hard “times”, she and her husband not only welcomed me to their house but made me feel truly part of the family. The fast connection I had with her is something hard to explain and I have to admit I have tears in my eyes when I write these lines and every time I think about it. It felt like we reconnected after having been separated for a long time and then we had a  new  time frame to enjoy ourselves before she had to go again. Her favorite question would hammer in my head many times a day even when we were distant and that has had a huge impact on my life. At a young age when I used to day-dream a  lot,  I would learn that the most important day of our life is not in the future nor in the past. It is today; where/who/how we are right now. Being conscious of the present day without any masks, ghosts of the past,  or the fears of the future can be a challenge to achieve, but it’s also a gift and Barb knew that. That’s where her constant smile came from,  even knowing about her disease. 
I was never able to take Barb flying, but I think constantly about her when I do. She was such a big part in my challenges learning to fly, improving my English, and then flying a little airplane for more than 100 hours from Canada to Brazil that I decided to have her initials in the Brazilian registration number after the airplane export process was done. The airplane was grounded for more than half a year waiting for an authorization to fly for the first time with it’s new call sign. Barb passed away on the 25th of July/2013. On the very next day the authorization was released and my friend, Karol, flying the airplane took off after hearing from the tower: PP-BLJ (Barb Louise Johnson) clear for take off.                                                                                                     
She is now free, limitless, and now that she is gone I still can hear her asking me her favorite question, and she knows, wherever she is right now, that my answer is the memory of her asking me: “What was the best part of your day?”

7 comentários:

  1. Dear son, I was there two years ago and could live besides her. I know the wonderful relationship of both, and I am very proud of you about your feelings and your precious words, Congratulations I love you.

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  2. Gustavo, que texto lindo! Expressa seu coração sincero, verdadeiro e amoroso! Estou certa de que Bárbara gostou e gosta muito de você e que sua presença na casa dela lhe trouxe muita alegria!bjs. Jô

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